Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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Em maio deste ano, Martin Selmayr, um alto comissário europeu, tweetou aquele que para ele seria um cenário de terror para a próxima reunião dos G7: Imaginem, dizia ele, se em vez de Barack Obama, François Hollande, David Cameron e Matteo Renzi, a reunião dos G7 do próximo ano contemplasse Donald Trump, Marine Le Pen, Boris Johnson e Beppe Grillo. Nesse longínquo e pacato mês de maio, Semayr mal podia adivinhar que, na verdade, a visão que propunha viria a encontrar-se perigosamente próxima da realidade no ano que se aproxima. Porque se 2016 se revelou um inimaginável turbilhão político, 2017 tem o potencial para ser uma sequela sem paralelo.

Da eminente lista de anos centrais para a nossa história recente, 2016 obtém um lugar especial. Embora não possua a ferocidade vermelha de 1917 ou a devastação iniciada em 1939, o ano que agora deixamos para trás é inigualável no impacto que teve em todos nós, incrédulos ainda com os acontecimentos que testemunhamos. Avassalados por uma maré aparentemente imparável de movimentos populistas, assistimos à vitória inesperada do Leave no referendo Britânico de junho depois de meses de campanha dominados pelo apelo ao medo e a um nacionalismo mal disfarçado. Em novembro, no derradeiro duelo final da corrida à presidência dos EUA, assistimos à improvável vitória de um magnata narcisista sobre Hillary Clinton, a personificação da decadente e corrompida elite política americana. Com esta estrondosa viragem, a classe política do velho continente treme face ao possível contágio Europeu. É que com eleições decisivas na França, Alemanha e Holanda em 2017, a União Europeia nunca na sua breve história esteve tão vulnerável ao colapso.

O primeiro palco de 2017 terá lugar naquele que é tido por muitos como um dos mais avançados países Europeus no que concerne ao pensamento liberal: a Holanda. Berço dos pensamentos mais progressistas, também uma nova forma de fazer política aqui nasceu, apregoada pelo atual líder das intenções de voto para as eleições de 2017: Geert Wilders. Deixando para trás o triste passado repleto de homofobia, antissemitismo e conservadorismo religioso da típica extrema direita, Wilders apela fortemente a um público mais vasto, autoproclamando-se como defensor dos valores liberais numa batalha contra um inimigo comum: o Islão. Mas apesar da liderança nas sondagens do Partido para a Liberdade (PVV), poucos parecem acreditar que Wilders tem uma hipótese realista na governação da Holanda. Com efeito, mesmo que as intenções de voto permaneçam inalteradas até março, o sistema de representação dos Países Baixos obriga o líder do PVV a formar um governo de coligação, possibilidade já recusada pelos restantes partidos políticos. Wilders está pois, por agora, isolado na paisagem política Holandesa.

No entanto, a verdadeira batalha pela união do velho continente travar-se-á em terras Gaulesas, onde um derradeiro duelo à direita entre Marine Le Pen e o candidato Republicano François Fillon é apontado como o cenário mais provável. Dispensando Le Pen de qualquer introdução, François Fillon merece aqui algumas linhas de destaque pelas suas políticas “revolucionárias”: Antigo primeiro-ministro da presidência de Sarkozy, Fillon é tido como um tradicionalista católico e um fervoroso fã das políticas de Thatcher. Não é assim surpreendente que o candidato Republicano não se acanhe no corte de meio milhão de postos de trabalho no setor público, parte da sua revolução neo-liberal para a economia francesa. A Eurocética Frente Nacional de Le Pen tem assim alguns motivos para recear o candidato Republicano: a sua linha tradicionalista e conservadora, o seu ênfase na identidade francesa, as suas posições duras em relação ao Islão e às políticas de Imigração, assim como a sua agenda pró-russa contra o Imperialismo Americano; são ideias que coincidem com as de Le Pen e que podem fazê-la perder parte do seu eleitorado mais moderado. Embora ainda não seja conhecido o candidato socialista e Fillon constitua um obstáculo à altura, a Frente Nacional de Le Pen hoje só tem motivos para sorrir depois do espetacular resultado que a sua retórica anti-establishment rendeu a Donald Trump no outro lado do Atlântico. Face a um possível Frexit desencadeado por uma presidência de Marine Le Pen, a Europa, mais uma vez, sustem o fôlego naquele que poderá vir a tornar-se o golpe fatal para o sonho Europeu.

Se em França, o cenário deixa espaço para especulações apocalípticas, na Alemanha o Bundestag promete, por enquanto, continuar a ser o bastião de defesa das instituições de Bruxelas. Mesmo assim, desde a serena vitória do partido de Angela Merkel em 2013 muito na paisagem política alemã se alterou. A política de “portas-abertas” para os refugiados da Chanceler e os ataques terroristas em solo nacional provaram ser um cocktail explosivo para a subida na popularidade do partido xenófobo e eurocético Alternative für Deutschland (AfD), hoje com intenções de voto que oscilam à volta dos 12%. Apesar disso, estando isolado dos outros partidos, o AfD teria de quase quadruplicar o seu eleitorado para vencer as eleições de 2017. Assim, hoje, o cenário mais provável é uma coligação ao centro entre o partido de Merkel e os Sociais Democratas, alimentando desta forma ainda mais o sentimento anti-establishment que hoje constitui o principal combustível dos movimentos populistas por toda a Europa disseminados. No entanto, uma outra alternativa pode ainda surgir. Christian Lange do partido Social Democrata apontou recentemente o governo de coligação de António Costa como exemplo a seguir para o seu próprio partido. Já em 2013 os partidos da esquerda Alemã tinham conseguido uma maioria parlamentar, tendo falhado no estabelecimento de um governo devido a divergências históricas. Hoje, no entanto, o espírito que se vive à esquerda é marcadamente diferente. Embora seja importante considerar certos ingredientes particulares da política do Bundestag, uma Geringonça Alemã não pode ser descurada como a grande vencedora das eleições de 2017.

Uma imparável onda de movimentos populistas parece abanar todo o cenário político que antes tínhamos como certo. Este ano, o inesperado divórcio do Reino Unido em Junho só conseguiu ser suplantado pela eleição de Trump em novembro. Face a este tumulto de 2016, que reação Europeia podemos esperar? A rejeição do populismo fácil como aconteceu nas eleições presidenciais da Áustria no passado dia 4? Ou a reiteração da fúria contra as ineficazes classes políticas vigentes como se verificou no referendo Italiano, este mês? Caso a última aconteça, as implicações para o projeto Europeu com uma vitória de Geert Wilders na Holanda ou de Marine Le Pen em França não são por ninguém imagináveis.  Martin Selmayr afinal, no seu inocente tweet de maio, pode ter adivinhado o negro futuro do velho continente. Ficará 2017 para história como o ano em que o sonho Europeu se tornou pesadelo?

João Bastos, 4º ano