Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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Esta é uma crónica sobre o percurso normal de um estudante de Medicina. Estudamos 6 anos, fazemos esse exame de seriação e, se a nota desse exame nos permitir, grande parte de nós irá ingressar na especialidade no ano seguinte. Toda esta alucinante jornada é intercalada com uns saborosos 2 meses de férias de verão na Universidade e depois uns preciosos 25 dias úteis de férias anuais. Ora, para muita gente, este percurso do estudante de medicina que logo ingressa no mercado de trabalho, se a sua robótica capacidade de memorização lhe permitir colocar as cruzes num suficiente número de opções corretas, é uma enorme vantagem. Muitos de nós não têm que passar pelo limbo do Desemprego que tantas carreiras ataca. Gostaria talvez de ousar dar outra perspetiva.
Na mais recente viagem que fiz à América do Sul cruzei-me com muita gente. Gente de todos os recantos mundo, de todas as idades e das mais diversas áreas. Estudantes que decidiram interromper um ano os seus estudos para viajar, fazer voluntariado ou trabalhar no estrangeiro antes de ingressar no mercado de trabalho na sua terra natal, adultos que decidem abandonar o seu trabalho e partir à aventura de mochila às costas, entre tantas outras vidas com que me cruzei, histórias mirabolantes de aventureiros que correm mundo. Muitas das pessoas que conhecia viajavam há vários meses e a reação à resposta à clássica pergunta “Where are you from?”, que tantas conversas iniciou, era sempre a mesma “Wow, you’re the first portuguese I’ve met in this trip.” Perante tantas reações semelhantes decidi procurar se haveria alguma razão para este fenómeno. As razões são, obviamente, mais do que muitas entre culturais, económicas e sociais. De todas elas decidi enumerar apenas algumas.
Em primeiro lugar, e a que me parece ter mais peso, é a questão cultural: em Portugal não há ainda a tradição das pessoas se aventurarem no chamado Gap Year como acontece na Austrália ou em tantos outros países do Norte da Europa. Esta “paragem” de um ano de estudos, seja depois do ensino secundário ou depois da universidade, não é cultivada ou incentivada em Portugal. Para muitos, fazer um Gap Year é perder um ano, é ficar atrás de todos os outros, o que quer que isso signifique essa ideia perversa de seriar as pessoas com base na sua idade ou tempos de estudo. Os obstáculos são incontáveis, desde familiares a pessoais, em que o medo do que os outros poderão pensar se pode sobrepor à vontade de partir à aventura e à descoberta. Fazer um Gap Year é crescer, é descobrir-se é, no fundo, preparamo-nos para o futuro e para as imensas horas de estudo e de trabalho que se avizinharão depois. É termos tempo para pensar em nós, nos lugares mais recônditos, é poder estar em paz, sem pensar no que teremos que fazer na hora seguinte. Um Gap Year é uma oportunidade para fazermos o que sempre quisemos mas nunca tivemos oportunidade, é fugir da zona de conforto mas, mais que tudo, é poder voltar renovado, com novas perspetivas, novas ideias e novas histórias por contar que só enriquecem o nosso edifício.
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No entanto, fazer um Gap Year custa, inevitavelmente, dinheiro, e aqui surge a segunda razão, não menos importante: a questão económica. Obviamente que o poder de compra da maior parte dos portugueses é muito inferior ao de outros países da europa, mas acredito que esta questão pode ser contornável. Há hoje em dia muitas formas de poder parar os estudos sem grandes custos: seja ficar em Portugal, estudar outras áreas ou até viajar fazendo voluntariado em diversos lugares do mundo (sugiro a consulta do site Workaway.info, onde se podem encontrar milhares de oportunidades de trabalho e de voluntariado no estrangeiro). Uma pequena pesquisa na internet e um mundo de oportunidade.
Por fim enumero outra razão que é específica dos estudantes de medicina: o sistema. Não, não sou um anarquista ou um anti-sistema, até acredito que o nosso sistema de ensino da medicina em 6 anos de estudo – Ano Comum – Especialidade está bastante bem desenhado e com uma qualidade que a todos nos deve orgulhar. Podemos criticar sim a falta de maleabilidade do sistema. Podíamos querer parar entre o ano comum e a especialidade mas não podemos, perdemos a vaga. Podíamos querer parar entre o exame de acesso à especialidade e o Ano Comum, mas não podemos, teríamos que repetir o exame. Poderíamos parar durante o internato, mas para isso teremos que ter autorização do nosso tutor e do hospital, o que é extremamente complicado. Depois da especialidade? Com 29 ou 30 anos muitos consideram que já é tarde, outros ainda se arriscam sem saber qual será o futuro quando regressam. Neste ambiente cada vez mais competitivo onde acertar 90 em 100 perguntas não é garantia de podermos fazer o que sempre sonhámos, e onde o futuro é cada vez mais incerto, ninguém ousa parar. Aliás, não se trata de parar, tenho aplicado mal o verbo. Chamar-lhe- emos antes explorar. Ninguém ousa explorar, talvez pelo medo do desconhecido ou porque para nós, estudantes de medicina, explorar durante um ano é visto como um sinal de desinteresse ou de perda de conhecimentos. Quantas vezes já ouvimos nós, perante a ousada manifestação de querer descobrir “Parar um ano?! Depois não consegues voltar e a estudar, não te vais lembrar do que aprendeste em anos anteriores”. Não deixa de ser curioso que a ciência nos tenha ensinado a acreditar apenas na evidência, no que é comprovado cientificamente e que não emitamos juízos sem conhecimento de causa na medicina mas rapidamente nos precipitemos em conclusões infundamentadas e falaciosas sobre tantos outros assuntos. Na verdade, vários estudos indicam que a realização de um Gap Year aumenta o aproveitamento escolar, a satisfação no trabalho e diminui o Burnout na atividade profissional.
Nós estudantes de medicina deveríamos ser pioneiros nesta descoberta. Somos os eternos curiosos, os insatisfeitos que não se contentam com o satisfatório. Nós, futuros médicos, deveríamos ser os primeiros a cultivar esta exploração do que além das quatro paredes do hospital. Porque antes de tentarmos descobrir os mistérios da ciência, o corpo humano, temos que nos descobrir a nós e, se não for pelo Gap Year, que seja por outras vias. Ousemos. Ousemos ser diferentes, sem medo do que poderão pensar ou do que poderá vir. Porque o “nunca ninguém fez isso” nunca foi uma desculpa com que a nossa irreverente geração se contentasse. Não é fácil, é certo, mas tenhamos coragem. Há tanto por fazer, tanto por explorar que não nos podemos resignar ao percuso normal. Sejamos anormais, sejamos pioneiros porque já dizia Camões “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Sejamos nós os motores desta mudança para que depois possamos ser mais completos, mais realizados e mais capazes. Para que no fim possamos ser tudo aquilo que sempre quisemos ser.
Artigo por Sebastião Martins, 5º ano
Ilustração por Eduarda Costa, 4 ºano
Fotografia original do autor do artigo