Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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“The media is an important ally in any public health situation. It serves the role of being a source of correct information as well as an advocate for correct health behaviors. But before the media can take on that role, it needs to understand the virus, the issues surrounding it, policy and practices, and finally, recommended correct behaviors.”

Media Orientation Training Notes

Todos já vimos um anúncio na rua ou na televisão que nos ficou na cabeça. Ou temos um programa televisivo preferido que seguimos regularmente. Ou aquele blogger que nos faz parar de estudar para ler as suas publicações. Ou aquela página do Facebook que nos faz parar cada vez que corremos o feed. Não podemos negar que os media estão por todo o lado e que influenciam a nossa vida e a forma como vemos o mundo. Também não podemos negar que a comunicação social pode atuar a nível da saúde da população, mas tanto pode ser uma aliada como uma inimiga dos médicos.

Pensemos na televisão. Os programas matinais costumam ter uma rubrica sobre saúde, apresentada por um médico ou enfermeiro. Que informações devem estes profissionais da saúde apresentar à população num canal televisivo nacional? Qual é o limite para aquilo que devem dizer? Numa entrevista, Júlio Isidro falou-nos da rubrica de saúde que tinha num dos seus primeiros programas: “No Programa Juvenil, eu tinha lá o Dr. Eurico da Fonseca, que fazia uma rubrica de 15 a 20 minutos sobre saúde. Eu era miúdo, tinha 16 ou 17 anos, mas comecei a aperceber-me que o senhor nunca fazia uma coisa que era falar de sintomatologia enquanto falava de uma certa doença, o que era exemplar. Em televisão ou rádio, isso nunca se deve fazer porque cria automaticamente um autodiagnóstico no espectador, o que não está correto. Tratar da saúde, em termos de órgãos da comunicação social, deve ser sempre na perspetiva terapêutica e dos comportamentos.” Ou seja, é importante abordar a saúde nos meios de comunicação, mas também é importante saber o que dizer e não assustar a população. É importante que depois destes programas as pessoas olhem para si próprias e pensem no que podem fazer para ser mais saudáveis e estarem alerta. Será mau sinal se estes programas aumentarem o número de pessoas nas urgências na hora seguinte ou o número de chamadas para a Saúde24. Significará que não se promoveu a saúde, mas sim a preocupação e a ansiedade. Neste último caso, a comunicação social atuou como inimiga da saúde. Segundo Júlio Isidro, “A comunicação social deve ter a obrigação de alertar as pessoas para os enormes disparates que estão a fazer. Só fuma quem se quer suicidar, a curto, médio ou longo prazo. Os casos de alcoolismo e de HIV são imensos. A comunicação social pode e deve fazer tudo porque pode eventualmente alterar comportamentos.” Extrapolando para os restantes meios de comunicação social, vários estudos têm mostrados que a informação obtida através da internet e dos computadores é a forma mais eficaz de promoção e de educação na saúde dos adolescentes e adultos, enquanto que a televisão e o rádio são os que têm mais êxito na população adulta e idosa.

Atualmente, sabemos que todas as doenças têm um dia, desde o dia do AVC (29 out) ao do doente coronário (14 fev) ou do cancro da mama (30 out). Júlio Isidro defende que “esses dias devem ser utilizados pelos meios de comunicação social no sentido de ajudar a informar os cidadãos.” Segundo a Direção Geral de Saúde, estes dias e as campanhas de promoção de saúde associadas aos mesmos têm, maioritariamente, uma reação positiva na população. No dia seguinte, mais raparigas vão fazer a vacina do HPV, mais doentes vão ao médico fazer um check-up, menos doentes faltam às consultas. Nesse sentido, a comunicação social deve aproveitar de facto estes momentos ao máximo para promover comportamentos de saúde e assim diminuir a iliteracia em saúde da população portuguesa. Júlio Isidro diz-nos que, para ele, “um papel fundamental dos órgãos de comunicação é alertar para os comportamentos, porque ao alertar para os comportamentos se está a melhorar a saúde.” E que melhor altura do que no dia comemorativo de determinada doença? Esses dias são a desculpa perfeita para se abordarem doenças ou condições de saúde menos conhecidas da população, para se promoverem comportamentos saudáveis, para se alertar para a necessidade de rastreios de patologias específicas, para se chamar à atenção de hábitos prejudiciais para a saúde e de educar a população em saúde.

Sim, a comunicação deve ter uma atitude de promoção e prevenção da saúde. Mas como? Em primeiro lugar, deve ser um profissional de saúde ou alguém que tenha formação na área a abordar o assunto, de forma a aumentar a confiança do ouvinte/leitor. Por outro lado, tal como Júlio Isidro defendeu, o objetivo não é assustar a população e, por isso, não se deve falar de sintomas nem de consequências da doença. Deve-se sim apresentar comportamentos promotores de saúde, mesmo que sejam aqueles que teoricamente toda a gente conhece, nunca é demais relembrar. Porém, tão importante como dizer as informações cientificamente corretas, é transmitir a informação de forma a que todos os cidadãos entendam, desde o adolescente rebelde que começou a fumar, ao advogado com mestrado e doutoramento até à idosa de 90 anos que tem apenas o 4º ano de escolaridade. Ou seja, a comunicação social deve-se preocupar em não excluir ninguém pela forma como dá a informação. Desta forma, aumenta-se a consciência coletiva sobre as questões de saúde e doença da população no geral.

O papel da comunicação social é simples: informar corretamente sem assustar. Queremos um aumento da literacia em saúde, não um aumento de doente nas salas de espera dos serviços de urgência com pulseira azul. Os órgãos de comunicação social devem usar os meios à sua disposição para chegar ao máximo de pessoas possíveis de forma a promover a saúde.

Sofia Prada, 5º ano