Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Imagem1

Desengane-se quem acha que ser médico é uma profissão como as outras. Não é. Não se trata de um mero serviço, nem de uma mera indulgência intelectual. A medicina é uma arte e uma ciência, isso traz implicações grandes a quem a pratica. Sendo uma arte, tem o seu quê de subjectivo, de skill pessoal e único a cada médico. Sendo uma ciência, é ao mesmo tempo objectiva, tentando-se reduzir ao máximo a incerteza. Neste último aspecto, a medicina volta a ter algo muito singular, é na medicina que se encontram as mais variadas áreas do conhecimento, resultando da aplicação da ciência e humanidades, no seu sentido mais geral, ao corpo humano.

Há uma história de um edifício do MIT chamado Building 20, um edifício supostamente temporário, feito para durar 6 meses, mas que foi demolido apenas 55 anos depois. Houve uns quantos prémios Nobel a terem trabalhado neste edifico, aliás, uma das suas alcunhas é “The Magic Incubator”. A razão? Porque havia uma quantidade enorme de diferentes departamentos no mesmo espaço físico e isto resultava em conversas de elevador fora do comum. E com estas conversas surgiam ideias que por sua vez levavam a descobertas. E estas descobertas recebiam prémios Nobel. Steve Jobs quando criou a Pixar adoptou esta ideia para a estrutura do edifico, criando um átrio onde inevitavelmente artistas, escritores e programadores tivessem que se cruzar.

Onde é que eu quero chegar com esta história? É que a diversidade do saber num médico é necessária para tratar doentes. Tratar de um doente paliativo depois de se ter lido “A Morte de Ivan Illitch” possivelmente não é a mesma coisa. Um desenvolvimento intelectual vasto é imperativo para se ser um médico competente. A curiosidade incessante, uma sede inexplicável de conhecimento é um requisito. Algo que depois tem de ser mantido, quando a “formação” acabar. O conhecimento não pode ser guardado em caixinhas. O curso é só o início de uma vida inteira de descoberta e deslumbramento com a beleza do que a natureza tem de mais belo, o Homem. O grau de responsabilidade acompanhante é o que torna esta procura constante de conhecimento não numa mera indulgência intelectual, mas sim numa necessidade sem a qual bons médicos não podem ser formados. A questão de se lidar com vidas humanas, implica um espírito de sacrifício enorme. Se uma oral de anatomia é “traumática”, o que será perder um doente por um erro nosso? Inevitavelmente, terá que acontecer, mas que sirva de motivo para se saber mais, para se procurar mais. O conhecimento tem a magia de ser algo cumulativo, assim sendo esta procura profissional acaba por ser uma decisão vitalícia. Um casamento que não deve acabar em divórcio. Mais uma página, mais um livro pode, de facto, fazer a diferença. Isto da arte que tem de ser aperfeiçoada, e da ciência que tem de ser dominada faz com que medicina não possa ser uma escolha, mas sim a única coisa que nos imaginaríamos a fazer. Se é possível fazer qualquer outra coisa, porquê escolher medicina? Onde se é tratado com ingratidão, e para nos tornarmos realmente competentes levamos uma vida inteira. Para o bem e para o mal, há uma chama, uma vozinha, uma vontade que não se cala e nos obriga a procurar a nossa felicidade no serviço aos outros, por muito que isso nos custe.

Afonso Delgado Gonçalves, 4º ano