Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Sem Titulo 2

Há várias décadas que as infecções causadas por bactérias resistentes estão a imortalizar-se um pouco por todo o mundo. Mas até quando vamos permitir este hediondo problema de Saúde Pública?

As bactérias podem ser invisíveis para o ser humano mas, certamente, não são irreais. Nos últimos anos tem-se verificado, cada vez mais, o aumento da resistência aos antibióticos, especialmente em meio hospitalar, devido à falta de profissionais de saúde, recursos e materiais de higiene essenciais, bem como de formação específica no controlo de infecções. Assim, em pleno século XXI, permanece na ribalta um dos maiores flagelos da Medicina, com sequelas catastróficas para a sociedade.
No século passado, o aparecimento dos antibióticos revolucionou o tratamento de doenças como a tuberculose, fatais nessa época, tendo contribuído, indubitavelmente, para uma diminuição da mortalidade mundial. Não obstante, como nenhuma descoberta é desprovida de perigos, uma das primeiras pessoas a accionar o alarme foi Alexander Fleming, responsável pela descoberta da penicilina, em 1928. Quando recebeu o prémio Nobel, alguns anos mais tarde, salientou: “There is the danger that the ignorant man may easily underdose himself and by exposing his microbes to non-lethal quantities of the drug make them resistant.”
Já dizia Paracelso: “a dose faz o veneno”. Mas então, o que fazer quando a cura se transforma em algo pior do que a própria doença? As resistências existem porque há um uso inadequado de antibióticos que, por sua vez, é agravado pela confiança cega das pessoas nos mesmos, que os vêem como “medicamentos infalíveis”. Só agora começamos a aperceber-nos da magnitude deste fenómeno.
A cada dia, 12 pessoas morrem em Portugal devido a infecções hospitalares. Anualmente, tal equivale a 700 mil mortes no mundo e, segundo as estatísticas do economista inglês Jim O’Neill, é de prever que, daqui a algumas décadas, esta causa de morte seja até mais fatal do que o cancro. Mais inquietante ainda é o facto de a taxa de infecções hospitalares no nosso país rondar os 10,5%, quase o dobro da média da Europa.
Mas o que contribui para isto? Será o uso e abuso dos antibióticos nos hospitais? Será o doente que não toma o antibiótico conforme as recomendações do médico? Ou o médico que prescreve o antibiótico errado? Ou as condições precárias que os profissionais de saúde enfrentam diariamente, nos hospitais, quando não há unidades de isolamento suficientes e as macas estão sobrelotadas de doentes?
Ao contrário do que se possa pensar, o início desta história não decorre sempre no mesmo lugar. Embora os hospitais se tenham transformado em verdadeiros reservatórios bacterianos, também a alimentação tem riscos: certos animais (como o frango e o salmão) estão saturados de antibióticos, contaminando os solos e a água com bactérias multirresistentes.
Contudo, não podemos esquecer que nesta guerra não há só vilões. Muitas das bactérias alojadas no nosso corpo são vitais: veja-se o exemplo da flora intestinal, que facilita a digestão e defende o organismo de outras bactérias, fungos e, inclusivamente, vírus. Quando tomamos um antibiótico, podemos interferir com essa flora e eliminar uma quantidade significativa da mesma, o que é igualmente nocivo para o ser humano.
Em Portugal, há cerca de um ano, a bactéria Klebsiella pneumoniae resistente a carbapenemos foi responsável pela morte de 3 pessoas no Hospital de Gaia e em Fevereiro de 2016 provocou 3 vítimas mortais no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Conhecida pela sigla KPC, é um dos mais flagrantes exemplos actuais de superbactérias, capaz de resistir a quase todos os antibióticos e, por isso, letal. Quem diria que um ser vivo tão minúsculo poderia ocasionar tantos contratempos?

É certo que continuamos à procura da chave para descodificar este enigma. Porém, haverá algum “ingrediente mágico”? Valerá a pena desenvolver novos antibióticos contra as bactérias resistentes? Ou devemos substituí-los de uma vez por todas?
Uma das ideias recentes consiste em utilizar bacteriófagos (vírus capazes de atacar e fagocitar as bactérias, levando à sua destruição). Neste momento, a empresa TecnoPhage, agregada ao Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, tem obtido resultados promissores. Porém, o medo de que sofram mutações condiciona a sua aplicação em humanos e só com o tempo saberemos se é uma solução.
Entre outras hipóteses, ganharam protagonismo: os polímeros de péptidos (também designados de SNAPPs), a colistina (antibiótico usado como última linha de defesa e com efeitos tóxicos nos rins), a formicina (uma nova proteína antimicrobiana com aminoácidos modificados, que destroem num largo espectro as bactérias nocivas) e a teixobactina (um antibiótico eficaz que foi produzido sinteticamente com o auxílio do iChip, permitindo que as células bacterianas individuais fossem isoladas e crescessem no laboratório). Além disso, foi aprovada a combinação ceftazidima/avibactam para o tratamento de pacientes com infecções graves causadas por bactérias Gram negativo.
Mas e se o herói estivesse mesmo debaixo do nosso nariz? Em 2016, uma equipa de investigação alemã da Universidade de Tübingen descobriu que o nariz humano contém um poderoso antibiótico que consegue aniquilar, em ratinhos, as bactérias multirresistentes do tipo MRSA. Este novo antibiótico (Lugdunina) foi desenvolvido a partir das bactérias da espécie Staphylococcus lugdunensis que, por norma, não estão no nariz humano em simultâneo com as bactérias da estirpe MRSA (ou seja, há menor probabilidade de estas últimas desenvolverem resistência contra as primeiras). Não é uma opção infalível, mas é uma das melhores apostas do momento, com duas limitações: o seu uso em humanos e o balanço entre o prejuízo e o lucro destas investigações.
Também a nanomedicina surgiu como alternativa, baseando-se na criação de pequenos dispositivos ou robôs microscópicos que estariam no interior do organismo (introduzidos por cápsulas ou injecções), vigiando e atacando bactérias passíveis de despoletar infecções. Todavia, o antídoto milagroso para vencer as superbactérias é ainda uma utopia.
Apesar disso, ao nível da prevenção existem medidas simples de higiene pessoal que podem fazer toda a diferença, desde a mera lavagem das mãos até à desinfecção do estetoscópio e à limitação da utilização das batas pelos profissionais de saúde nas consultas. Também não devem ser usados anéis, pulseiras e unhas de gel, pois favorecem a transmissão de infecções. Devem ainda implementar-se programas de apoio à prescrição de antibióticos (o que já foi concretizado em várias unidades de saúde).
No nosso país surgiram, há alguns anos, programas na área do controlo e prevenção de resistências a antibióticos, tendo sido celebrado a 18 de Novembro o Dia Europeu dos Antibióticos, uma iniciativa europeia que teve como objectivo, não só sensibilizar a população para a ameaça que a resistência bacteriana aos antibióticos constitui para a humanidade, mas também promover o seu uso racional. Além disso, na semana de 14 a 20 de Novembro assinalou-se a Semana Mundial para a Sensibilização sobre o Antibiótico.
Destaca-se a Noruega como sendo um dos países europeus com menor taxa de resistência bacteriana a antibióticos. Nos anos 80, a Noruega fez uma aposta sem precedentes na criação de salmão, o qual começou, rapidamente, a ser comercializado. Porém, surgiu um problema nessa altura: a furunculose, sendo administrados antibióticos para a combater. Ciente da necessidade de apoiar o sector da piscicultura sem pôr em risco a saúde pública, um grupo de cientistas desenvolveu uma vacina eficaz contra a furunculose, sem efeitos secundários para o ser humano. Em 1994, já todos os piscicultores do país tinham substituído os antibióticos pela vacinação e introduziram métodos adicionais para evitar a contaminação cruzada entre gerações antigas e novas. Este exemplo é um protótipo perfeito de como a inovação e associação entre sectores distintos podem potenciar a utilização racional dos antibióticos.
Em suma, para controlar este e outros problemas emergentes é crucial garantir a qualidade de gestão dos hospitais do Sistema Nacional de Saúde e investir nos avanços científicos e tecnológicos. Se não o fizermos, no futuro podemos vir a deparar-nos com um mundo onde a mais simples das cirurgias possa ser impossível de realizar sem alto risco de morte por infecção. Este pensamento é deveras preocupante, mas está a ganhar relevo e pode culminar na perda de muitas conquistas da Medicina se não for dada mais atenção às bactérias multirresistentes, que ergueram uma muralha intransponível pela maioria dos antibióticos. Tal como a Organização Mundial de Saúde reconheceu em 2014: “este não é um problema do futuro, mas sim do presente, e já se podem ver os efeitos”. Ainda há muito trabalho pela frente. Não podemos desistir se queremos dominar, de vez, este problema: é agora ou nunca.

Cláudia Silva, 4º ano