Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Sem Título 1

“Enquanto as mãos me obedecerem e o cérebro souber mandar, vou continuar”, dizia na sua Lição de Jubilação na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em junho de 2014.

Parou hoje, aos 72 anos, o Professor Doutor João Lobo Antunes. Tido como um dos vultos mais proeminentes da neurocirurgia em Portugal e da sociedade portuguesa nas últimas décadas, o Professor foi e é particularmente acarinhado e admirado pelos alunos da Faculdade onde se formou.

Recordamos agora, em jeito de homenagem, o artigo de opinião que redigiu em abril de 2014 para a revista RESSONÂNCIA, focando os hábitos de leitura dos estudantes de medicina. Respondeu na altura o Professor aquando do envio do artigo: “Aqui vai o texto que me pediram, um pouco mais longo, mas como disse um escritor famoso, não tive tempo para o fazer mais curto.”

Contraste de Culturas

Como apêndice a uma colectânea de ensaios a que chamou “Aequanimitas” publicada no início do séc. XX, Sir William Osler (1849-1919), o fundador da medicina clínica tal como hoje a praticamos, incluía o que chamou “Bed-side Library for Medical Students”. A sua recomendação era “rest not satisfied with professional training, but try to get the education, if not of a scholar, at least of a gentleman”. E acrescentava que se os alunos lessem todas as noites meia hora ficariam surpreendidos com quanto teriam lido ao fim de um ano. A lista continha dez títulos e incluía, entre outros, a Bíblia, Shakespeare, Montaigne, Plutarco e o D. Quixote. Montaigne acompanha-me há trinta anos, e o D. Quixote (e Shakespeare), escrevi uma vez, é tão útil como a biologia molecular ou as neurociências, para decifrar no citoplasma do que somos, emoções, afectos e inteligências, além de pôr uma ordem humana neste caos neuronal, que os cientistas “puros” não conseguem resolver.

De facto, é nas humanidades, que incluem no seu abraço as línguas, a literatura, a história, a filosofia, a religião, enfim tudo o que tem como objecto o estudo e a contemplação do que significa ser humano, que é possível encontrar o eco mais perfeito da voz com que a doença exprime o seu sentir, embora a doença não seja um tópico popular na literatura. Virgínia Woolf, numa luminosa meditação a que chamou “On being ill,” explica a dificuldade de comunicar a doença pois esta prefere a solidão e requer “not only a new language, more primitive, more sensual, more obscure but a new hierarchy of passions”. As humanidades executam a sua tarefa comunicando uma visão profunda da natureza humana, olham condoídas, intrigadas, impacientes ou irónicas, para os modos de sofrer do corpo e da alma – já Galeno dizia que o corpo e a alma transferem entre si as suas maleitas –, e ainda para a arte da cura, não esquecendo a prosápia e as aflições daqueles que se dedicam ao nosso ofício.

Não é minha intenção elaborar uma lista “moderna” que substituirá a de Osler. Vale a pena, contudo, chamar a atenção para o volume que recentemente Clara Crabbé Rocha (filha de Miguel Torga) publicou com o título “A Caneta que Escreve e a que Prescreve”, uma antologia de textos sobre as doenças e a medicina na literatura portuguesa, esperando que a sua leitura aguce a curiosidade dos leitores e os leve a procurar as obras originais. Alguns dos excertos são narrativas da doença do próprio autor, ou seja autopatografias, das quais uma das mais celebradas é o “De Profundis. Valsa Lenta” de José Cardoso Pires, mas o livro abrange praticamente todos os géneros literários. É claro que a estes eu acrescentaria, pelo menos, os contos de Tchekov, a “Peste” de Camus e “A morte de Ivan Illitch” de Tolstoi.

Devo confessar que o nível de cultura e curiosidade intelectual das novas gerações de médicos é desconsolador, e não encontro o mesmo “vibrato” emocional que me animou toda a vida – não sabem contar e não sabem ouvir. Como apontou Rita Charon, a pioneira da chamada “Medicina Narrativa”, parece que nos tempos de hoje os doentes são forçados a escolher entre a atenção e a competência, entre a simpatia e a ciência. A verdade é que a narrativa da doença só é bem entendida quando já se escutaram outras vozes, as vozes da ficção, da poesia ou da filosofia, pois estas ajudam a apreender o sentido mais profundo do sofrimento, oculto, tantas vezes, no interstício de um discurso que tanto pretende revelar como esconder.

No prefácio do meu primeiro livro, “Um Modo de Ser”, escrevi que era outra a medicina quando praticada por médicos cultos. Não era à erudição literária que me referia, mas aquela que nos confere competência para falar com qualquer pessoa num diálogo que nos eleva à altitude que permite o olhar horizontal, olhos nos olhos. E, ao mesmo tempo, gozar uma outra dimensão desta profissão tão generosa na abundância de benesses que derrama sobre quem a pratica.

Professor Doutor João Lobo Antunes in RESSONÂNCIA XVIII – Contrastes