Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Ress

Foram duas leituras que me levaram a reflectir sobre as singularidades da existência das jovens mães ao longo dos tempos. Tinha lido há pouco tempo o romance “A Mulher de Trinta Anos”, de Honoré de Balzac (1799-1850), quando me chegou aos olhos um artigo intitulado “Confirma-se: a gravidez muda o cérebro das mulheres” (Público, 20.12.2016).

Pelo que evidencia um grupo de investigadores da Unidade de Investigação de Neurociência Cognitiva da Universidade Autónoma de Barcelona, a gravidez está associada a transformações na estrutura cerebral materna. Assumindo que as hormonas sexuais esteróides configuram importantes reguladores da morfologia e densidade neuronais – conhecimento obtido anteriormente, sobretudo em estudos focados no desenvolvimento pubertário – foi possível mensurar a redução do volume de substância cinzenta em regiões associadas à cognição social, especificamente em estruturas cerebrais comprovadamente implicadas no suporte da interacção entre a mãe e o recém-nascido, localizadas no córtex pré-frontal e temporal.

Hipoteticamente, a metamorfose ocorrida nestes circuitos neuronais viabiliza a optimização das funções necessárias ao exercício da maternidade. Nos cérebros dos indivíduos do sexo masculino estudados (pais pela primeira vez), nenhuma alteração foi observada.

Não é este o espaço para dissertar sobre os meandros da neurociência mas quem estiver interessado pode aceder ao artigo, intitulado “Pregnancy leads to long-lasting changes in human brain sctructure”, no site da Nature Neuroscience (doi:10.1038/nn.4458).

O que nos corrobora o estudo supra-citado é que, ao contrário dos homens – cuja biologia parece ser imune ao surgimento da prole – o comportamento das futuras mães é condicionado por alterações neurobiológicas, que lhes potencia um rol de atitudes estereotipadas face ao recém-nascido, assim como em relação à restante sociedade.

É “uma verdade universalmente aceite” que o instinto maternal e a superioridade moral a ele atribuída estão enraizados na Humanidade. Sobretudo entre os povos que veneram o episódio longínquo em que a Virgem Maria concebeu o “bendito fruto do vosso ventre, Jesus”. Perdoa-se o remoque, pois, a despeito das querelas religiosas, e mesmo para os agnósticos como eu, é ridículo apagar a marca deste dogma cristão na cultura ocidental.

Há ainda, e não é de somenos, a evidência acumulada na área da pedopsiquiatria face à importância da vinculação materna no normal desenvolvimento neuropsicológico das crianças. Mãe é mãe, na generalidade das famílias, sagradas ou não.

Porém, devemos ter cautela nas generalizações e nos juízos forçados. Por muito que custe aos acérrimos defensores da “família tradicional”, terão de apaziguar a fúria da sua moral conservadora, uma vez que nem todas as mulheres – ao que parece, os homens ficaram automaticamente excluídos deste escrutínio, dado que nem o cérebro são capazes de converter por um filho – têm o almejado instinto maternal, por incúria da progesterona ou da mão divina.

Vale citar o que escreveu Sari Botton, no espaço Modern Love do New York Times (28.10.2016): “My biological clock can’t tick fast enough. (…) The prospect of meeting a brand new baby suddenly felt heartbreaking. This was unusual, because newborns have never held much appeal for me. That’s putting it mildly. Newborns freak me out. When I see a newborn, I see a bottomless well of urgent, indiscriminate need. I fear not knowing what’s needed. I fear feeling besieged and trapped. In equal measure, I fear being judged for all that, for instinctually retreating from rather than being drawn toward the shrieking blobs everyone else melts over”.

Segundo o dicionário Priberam, o adjectivo “balzaquiana” reporta a “aquela que tem mais de trinta anos; aquela que revela características das personagens dos romances de Honoré de Balzac”. Ora, daqui se conclui – dando um coice no método científico, de que certamente me desobrigarão – que os investigadores catalães se ocuparam dos cérebros das balzaquianas de hoje, descendência pós-moderna, talvez de sétima geração, da marquesa Julie d’Aiglemont.  

Presumo que, em 1840, escapasse a Balzac o conceito de ressonância magnética nuclear, o que não o impediu de dissecar na perfeição o que viria a ser provado quase dois séculos depois. Reparem no que escreve: “… um facto contribuiu em muito para modificar o estado deplorável em que Julie se afundara até então. Teve uma filha e quis criá-la. Durante dois anos, as vivas distracções e as inquietas alegrias que dão os cuidados maternais tornaram-lhe a existência menos infeliz.” (Balzac, “A Mulher de Trinta Anos”, pág. 42-43, Difel, 2004).

O exemplo desta heroína melancólica e sedutora não é, de todo, o único que encontramos nos romances de oitocentos. Basta pensar na belíssima Anna Karenina ou na ansiosa Luísa, de O Primo Basílio, para detectar os traços comuns: são jovens, ricas e belas, cuja única escapatória ao sufocante tédio do lar é a adrenalina das paixões extra-conjugais. Estas mulheres sacrificaram tudo o que era lhes era impositivamente sagrado – família, filhos, status quo na tentativa de se fazerem donas dos seus destinos.

Os génios que as criaram souberam dar-lhes o opróbrio a que estariam condenadas na sociedade real. Os pimpolhos foram, para a marquesa d’Aiglemont, como para Anna Karenina e tantas outras, a sede de expiação, aqueles cujo afecto se viram obrigadas a sacrificar em prol da liberdade, o bem que se arrisca – e se perde – quando se desafia a ordem natural das coisas.

Hoje, a realidade das mulheres de trinta anos é outra. Isto, claro, se excluirmos desta asserção o sem-fim de mulheres que se debate com a pobreza, assim como aquelas que tiveram o azar de nascer noutros pontos do planeta, em que a sua vida vale menos, e esse menos é muito pouco, aos olhos dos seus concidadãos. Na realidade das famílias médio-burguesas ocidentais, crê-se que as epístolas de Simone de Beauvoir são já desajustadas ao nosso tempo. Não é bem assim.

Foquemo-nos na pátria. O recente relatório da ONU, “Progresso das Mulheres do Mundo 2015: Transformar Economia, Realizar Desejos”, revela que as mulheres portuguesas gastam, em média, quatro vezes mais tempo em trabalho doméstico não renumerado, comparativamente aos homens – 302 minutos versus 77 minutos diários. (Visão, 27.04.2016). O título do relatório internacional pode parecer, e é, estrambótico, mas os dados que contém só nos podem envergonhar. E o pior está por dizer: segundo o Inquérito Nacional aos Usos do Tempo do Homem e da Mulher (e asseguro que não inventei estes títulos), 74% das portuguesas – e 82% dos homens portugueses – acha justa a distribuição do trabalho doméstico nos seus lares (Jornal de Notícias, 28.06.2016).

Outros dados devem ser ponderados na hora de ajuizar a vida das famílias de hoje. Nunca a amável Julie confeccionou uma refeição, limpou o pó dos salões, engomou um vestido (ou a farda do seu odiado marido-general-marquês) ou – e isto sem prejuízo da saudável fisiologia do seu córtex pré-frontal – mudou uma fralda ou embalou um dos seus cinco filhos. Era (e foi-o per saecula saeculorum) o tempo das “criadas de servir”.

A generalidade das mulheres de trinta anos não tem à sua disposição os meios financeiros necessários para pagar um auxílio tão vasto. E já não é socialmente aceitável “acolher” uma estranha – sim, apenas o feminino era admitido – na intimidade do lar, a auferir um salário situado entre o miserável e o inexistente e abdicando de vida própria, para que esta assumisse a seu cargo o peso das tarefas inerentes ao lar. Volto à literatura, para vos lembrar a criada-chantagista Juliana, que, à força de recolher imundícies e obedecer os senhores, “Fez-se má.” (Eça de Queirós, O Primo Basílio).

O problema, ao que parece, encontra-se no facto de a libertação das “criadas” não se ter feito acompanhar pela entrada do elemento masculino do casal na cena das lides domésticas. Segundo Karin Wall, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, “… nos países nórdicos esse modelo da mulher-a-dias não é significativo. (…) Em Portugal há uma cultura de bem-estar doméstico muito diferente, (…), em que se insistiu no brio do trabalho doméstico, na necessidade do vinco nas calças e de ter a comida sempre pronta, uma socialização consistente até aos anos 70, que passou de geração em geração. E que ainda subsiste.”

Os dados obtidos pela equipa desta investigadora, referentes a 2014, revelam que “ a família constitui ainda um palco de desigualdades de género persistentes” e que “em comparação com outros países, as mulheres portuguesas ainda usam muito tempo com as tarefas domésticas”. Se mais de um quarto dos casais jovens reparte as tarefas de confecção das refeições – uma actividade socialmente mais valorizada, associada à criatividade, realizada maioritariamente pelo elemento masculino em 12% dos casais – apenas 6% dos casais partilham as tarefas de tratamento da roupa. Já relativamente à assistência a familiares doentes/dependentes, 47% dos casais afirma partilhar esta função (Público, 19.11.2015).

Porém, é na questão da parentalidade que as águas mais se turvam. Num inquérito realizado às jovens finalistas do ISEG, da área de Gestão, 87% destas manifestava o desejo de ser mãe. Acresce que, quando acareadas com a hipótese de se depararem com atividades ou contextos organizacionais nos quais a carreira profissional implique abdicar da maternidade, a grande maioria admite coarctar as aspirações profissionais ou ajustar a área de trabalho, ainda que com prejuízo dos níveis de apetência, adequação às qualificações ou ao percurso académico. (Expresso, 12.11.2016). Ao que parece, o relógio biológico das portuguesas tem mecanismos suíços.

Já em Janeiro de 2016, foi entregue no parlamento português uma petição pública, requerendo o pagamento a 100% da licença de maternidade até aos seis meses de vida do bebé, argumentando a evidência médica dos benefícios do aleitamento materno exclusivo até esta idade.

Vozes críticas argumentaram estar esta proposta em rota de colisão com a tendência progressista de aproximar os tempos de licença de parentalidade dos dois progenitores – actualmente, a licença de parentalidade paga na totalidade é de 120 dias, para a mãe, e de 30 dias para o pai (Diário de Notícias, 08.02.2016).

Numa sociedade que carece de leis para tudo e mais alguma coisa, será difícil encontrar consensos. E estes são imprescindíveis, precisamente quando a problemática da natalidade é sobejamente conhecida. É impreterível compreender o que vai na cabeça dos casais. Evidentemente, não será por decreto legislativo que a igualdade e a justiça entrarão nos lares dos portugueses.

Entre Julie d’Aiglemont e as mulheres de trinta anos que eu conheço há um fosso abissal, aberto pela conquista das liberdades individuais, pelo acesso ao mercado de trabalho e, sobretudo, pelos métodos de contracepção. Já os meus companheiros de género podem estar descansados que o nosso extermínio não está para breve – o que há a fazer é agarrar bem a oportunidade de redenção. Ainda que estejamos a descobrir as limitações neurobiológicas – ou da ausência delas – que nos são impostas, não devemos menosprezar a força do arbítrio. Dos homens e das mulheres.

Rui Coelho, 4º ano