Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Sem Título 1

Este artigo foi o 2º classificado do Concurso  Prognóstico Incerto, promovido pela Revista RESSONÂNCIA.

Vivemos num período de turbulência política internacional causada por dois grandes acontecimentos que irão, certamente, marcar a primeira parte do século XXI. Falamos, claro, do Brexit e da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas.  

Se, no último quarto do século XX parecia que o populismo e os regimes nacionalistas estavam erradicados da esfera política e social ocidental, a viragem do século trouxe de volta algumas dessas ideologias.  

As razões são várias; desgaste da classe política, grave crise financeira de 2008, impasse político e organizacional da União Europeia e, um fenómeno mais recente, a crise dos migrantes do médio oriente.  

Contudo, que consequências irão estes acontecimentos históricos trazer à área de Medicina em concreto?

Ora, como fenómeno essencial para a humanidade, a investigação na área de medicina é uma área que requer pesquisa e colaboração entre regiões, países e continentes. A globalização trouxe, de facto, um aumento na especialização de tal forma que foram criadas organizações internacionais com o intuito de alcançar progressos significantes.  

No entanto, todo este espírito nacionalista que paira no sociedade pode, de facto, atrasar este importante e essencial desenvolvimento. Na minha opinião, é certo que, nenhum Estadista ou sentimento extremista deveria atrasar o progresso medicinal. A ciência não pode conhecer barreiras, nem “walls”. 

Abordando o caso europeu, é conhecido que a Agência Europeia de Medicamentos vai alterar a sua sede devido à saída da União Europeia por parte da Grã –  Bretanha. Um entrave científico causado pela decisão popular de abandonar a União Europeia. Presumimos, como é normal, se a sede escolhida foi Londres é porque esta oferecia mais e melhores condições para um desenvolvimento na área. 

Estas mudanças, ao se realizaram, irão reduzir o número significativo de oportunidades de trabalho para cientistas e estudantes de medicina. São, aproximadamente, 900 funcionários da AEM que serão forçados a relocalizarem o seu local de trabalho, de Londres para outra cidade europeia.

Segundo o Finantial Times, o acordo de saída entre o Reino Unido e a União Europeia, terá custos extraordinários, causando a sectores públicos e domésticos como a ciência, mas também a educação e agricultura, consequências graves.

No Reino Unido, cerca de 26% do staff académico nas universidades do RU são non-UK nationalists e cerca de metade dos estudantes de PhD são estrangeiros. É igualmente conhecida a dependência no recrutamento de médicos e enfermeiros estrangeiros para as ilhas britânicas que, segundo o mesmo relatório do Finantial Times, é insuficiente para as necessidades nacionais. Neste momento, são importados 10.000 enfermeiros por ano da Área Económica Europeia.

Até aos dias de hoje, o desenvolvimento de fármacos tentava equilibrar a distribuição geográfica dos participantes nos estudos clínicos, mas no futuro poderá ser complicado representar pacientes pós – Brexit na E.U. e no Reino Unido.

Nos últimos anos, a União Europeia enfrentou desafios económicos sem precedentes, que se continuarem a persistir pode colocar em causa a sua união. Consequentemente, as industrias farmacêuticas sofreram restrições financeiras com tendência a piorar nos próximos anos.

Estas restrições levaram as farmacêuticas a realizar os seus estudos clínicos no mercado Asiático. Mais de 60% dos pacientes que participaram nos estudos clínicos da AEM eram de países fora da EU, incluindo a Asia e Europa de Leste. O que também se verifica é que as industrias farmacêuticas de modo a reduzir os custos já levaram certos estudos clínicos para a China, resultando em redução de 50-60% dos seus custos. Trata-se de uma situação preocupante pois os resultados podem ser afetados, tal como a eficácia dos fármacos nos pacientes europeus.

Por outro lado, existem vários medicamentos que obtiveram autorizações para entrar no mercado concedidas pela AEM. Com a saída do Reino Unido estas autorizações mantêm-se? As agencias britânicas irão colocar os seus produtos no mercado nacional e impedir outros medicamentos de actuarem lá? Irá a União Europeia impedir os medicamentos britânicos de se venderem nos países da União Europeia? E como ficarão os centros de investigação europeus que consistiam numa parceria entre os vários países?

Formalmente, o Governo de Theresa May nada disse em concreto sobre estas questões e o NHS (National Health Service) continua numa situação de impasse que não pode demorar muito mais tempo. Apela-se ao bom senso por ambas as partes e que a área da saúde seja o mais imune possível, pois caso as negociações tomem caminhos diferentes, as demais consequências para a Grã – Bretanha serão assustadores: quer na área de investigação, quer nos recursos humanos com previsões de um défice de 20.000 profissionais de saúde num espaço de 10 anos.

Já Donald J. Trump, o 45º Presidente dos Estados Unidos da América, fez das suas principais bandeiras a revogação total do Plano Nacional de saúde, conhecido por Obamacare. Caso aconteça, 22 milhões de americanos irão perder o seu seguro de saúde.

Trump pretende fazer cortes no Instituto Nacional da Saúde, cortando em 18% os financiamentos do próximo ano comparativamente com os fundos de 2017, colocando em causa a inovação e investigação médica na área do cancro, saúde mental, entre outras. 

Não só coloca em causa os novos projectos que iriam começar, como também os projectos em fase de desenvolvimento, colocando em modo stand-by cerca de 80-85% dos mesmos. Enquanto o orçamento está em limbo, vários investigadores, estudantes de medicina e doutorados terão que arranjar novos projectos, podendo alguns nunca serem retomados.

Citando Atul Gawande, numa palestra recente na Universidade de Harvard, “Eliminar o Obamacare não vai baixar os custo de saúde nas famílias no programa nacional de saúde, mas sim piorar. Há duas formas de assegurar as pessoas que se têm cancro ou diabetes podem receber os tratamentos que necessitam: um pagamento singular de cada pessoa ou um programa privado fortemente regulado, com as normas que Obama assinou jurisdicionalmente”.

Actualmente, este Plano idealizado durante administração Obama ainda vigora mas irá, como tudo indica, ser removido e substituído por um novo a ser aprovado pelo Congresso Americano.

Porém, nem tudo são más noticias para a saúde. Um dos outros objectivos referido por o Presidente americano foi a luta contra o lobby farmacêutico de modo a que permitisse à Medicare negociar e reduzir os preços, alguns totalmente absurdos, de medicamentos. Uma medida que, porém, deverá ser muito difícil realizar – se.

Por fim, na minha opinião, as consequências são claras. Reduções orçamentais por parte dos EUA e estruturais e políticas no R.U. irão trazer graves consequências e irreparáveis danos na saúde humana. Consequências estas que terão um impacto actual e também ao longo dos próximos anos, pois trata – se de um processo gradual.

Não poderá haver uma redução da cooperação internacional e de projectos de investigação. Não só por nós, mas igualmente pelas gerações futuras. Todos estes problemas mencionados vieram de decisões politicas apoiadas popularmente, logo com toda a legitimidade para serem aplicadas. Porém, não posso deixar de reforçar que a medicina deve e deverá ser independente de qualquer poder político. É uma questão que ultrapassa fronteiras nacionais.

O progresso científico não pode ser desprezado, muito menos passar para segundo plano!

Francisca Sarmento, 4º ano