Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Ress 11 05

Nunca gostei de rotinas.

Corrijo-me.

Nunca gostei de gostar de rotinas. Incomodam-me, prendem-me, são intrusivas. Sempre quis ser alguém que dominasse o improviso e que fosse construindo cada momento a partir dele próprio e não de todos os passados. Mas é nas rotinas que encontro o meu maior conforto.

E poderia certamente ser nas rotinas que encontra o seu maior desespero, pensa o leitor.

Corrijo-o.

É no quebrar das rotinas que encontro o meu maior desespero. Não, não é inflexibilidade minha, não é traço anancástico.

É medo.

bom dia também para si senhor doutor,
tão novinho que é senhor doutor,
anda a aprender não é senhor doutor,
quem me dera ter a sua idade senhor doutor,
que olhos tão riquinhos senhor doutor,
mal o vejo senhor doutor,
pode me passar os óculos senhor doutor,
eu passei bem a noite graças a deus e o senhor doutor dormiu bem?

Ouvido dia após dia, a dona Francelina cumprimenta-me e eu desfaço-me em sorrisos, escudando-me de bata branca, manchando invisivelmente a bata com a minha assumida ignorância. Tudo me é desconfortável. Preferia estar desfardado, ser só eu em mangas de camisa. Quem me dera que me chamassem pelo meu nome, que até na bíblia aparece tão simples sem adereços, e me distanciassem desse trato formal que me enerva. Não sou doutor, faltam dois meses.

serve na mesma senhor doutor,
é como se já fosse senhor doutor,
já faltou mais senhor doutor.

E quando for o meu nome não vai mudar, deus, ou quem for que fiscaliza estes preceitos, não o permita. Dia após dia a rotina repete-se e enerva-me. Sou aluno, fico eu com a dona Francelina. Nunca mais tem alta que a família não quer, nunca mais morre que a enfermeira não gosta, nunca mais se cala que a solidão ensurdece.

que coitada já deve anos à cova,
faz só um exame objectivo,
ajusta só a dose do tramal,
vê só se hoje é dia de trocar o fentanil,
põe só a morfina em SOS que as metástases ósseas são tesas de acalmar.

E nesta rotina vivo o dia a dia. Saio cedo que não há muito para eu fazer. A senhora da cama ao lado há de ter alta hoje, se sempre a vierem buscar. Outra há de vir ocupar a cama logo pela manhã que a dona Francelina gosta sempre de ir falando com quem passa. Ajeita os lençóis, explica a rotina da enfermaria que ela não é nada parva e gosta muito de reparar nestas pequenas coisas.

e bom dia e boa tarde,
e até qualquer dia dona Francelina,
muito gosto em conhecê-la,
as melhoras.

Mais um dia passa e os doentes vão trocando, mas a dona Francelina aguarda, cria raízes que por enquanto não há vagas em Paliativos. Os dias repetem-se, as enfermeiras repetem-se, os comprimidos multiplicam-se. Eu mantenho-me. A rotina perpetua-se. O medo acalma e protela-se um dia mais. Os outros, os anónimos que estão longe, não morrem para vagar um lugarzinho, foi desta que as intermitências se tornaram permanentes, só pode.

E eu canso-me desta rotina, não há nada que quebre a monotonia clínica. Tudo o que queria era ver pessoas diferentes, casos novos, histórias curáveis. Mas é a hora da visita, há que apertar a bata, rever as análises e corrigir o tom de voz. Nunca me lembro de rever a porra do potássio.

mas e a minha mãe senhor doutor,
o que acha dela senhor doutor,
é mesmo cancro senhor doutor,
acha que se safa senhor doutor,
mas quanto tempo senhor doutor,
que será do meu pai sem ela senhor doutor,
mas vai ter dores senhor doutor,
cuide bem dela senhor doutor,
não a deixe sofrer senhor doutor,
por favor senhor doutor.

Uma e outra vez se aumentam as doses, ontem à noite precisou de oxigénio, está muito agitada. Tudo isto me sufoca. Tudo isto grita dentro de mim. E o medo adia-se.

é só pôr a benzo,
é só tirar a morfina de SOS,
é só pôr a correr a 2cc,
é só parar o antibiótico,
cancela só as análises para sexta feira,
põe só o buscopan que ela coitada mal respira,
hoje sais cedo que há pouco para fazeres.

Mas a rotina dita que passe na mesma por aquela cama, que repita os sorrisos e os gestos e que oiça uma vez mais. Tenho de escrever qualquer coisa no diário de hoje. Adiar o medo, tenho de adiar o medo, não há como deixá-lo chegar. Não posso escrever só que aguarda uma vaga ou a morte, o que vier primeiro. Também não sei quem é que trata destes preceitos da morte que teima em errar no prazo.

obrigado senhor doutor,
até já senhor doutor,
gosto em vê-lo senhor doutor,
desculpe lá as lágrimas senhor doutor,
já sabe como eu sou com os nervos senhor doutor,
até já, até já senhor doutor,
deus o guarde até amanhã senhor doutor.

Dia após dia após dia após dia a rotina repete-se mas ameaça acabar. A dona Francelina sorri. E recupera-se a calmia. E o medo espraia-se e suspende-se.

até amanhã senhor doutor,
gosto em vê-lo senhor doutor,
que ricos olhos senhor doutor,
deus o proteja senhor doutor,
cá estarei senhor doutor.

Até que qualquer coisa muda, um pequeno nada acontece e tudo se desfaz, não há espaço para improviso, não tenho nem essa liberdade. A rotina quebra para se substituir por uma outra.

E o medo chega.
bom dia Zé,
más notícias Zé,
alguma vez preencheste uma certidão de óbito Zé.

E o medo fica.

José Gavinhos