Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Ress WW

(imagem referente à série Westworld)

Coma: Estado de ausência total de contacto com a realidade – era esta a frase que rasgava um dos primeiros slides do workshop de Emergências Médicas e que propunha facilitar o diagnóstico de uma entidade que de fácil nada tem. Apesar de inocentemnete colocada, a frase abria um enorme conjunto de questões que nada tinham a ver com aquele contexto (médico, entenda-se). No entanto, e como sempre tende a acontecer nestas situações, são precisamente essas as questões que ficam a debater-se brutalmente o resto do tempo nas nossas cabeças. Porque afinal, quem de nós tem a certeza que tem contacto com a realidade ou sabe o que ela é?  

Ora, dir-me-ão que a realidade e o mundo são bastante concretos, deparámo-nos com eles todos os dias das nossas vidas. Seria assim no mínimo absurdo tentar duvidar a sua existência ou a sua natureza. É bastante óbvio que o papel ou computador que se encontra à frente do leitor existe. Pois, está a vê-lo com os seus olhos e a senti-lo com as suas mãos, de que outra forma poderia ser? Claro que já todos nós nos sentimos enganados pelos nossos sentidos. Porventura até durante o tempo em que o leitor esteve a ler este artigo e leu na 3ª linha do texto a palavra inocentemnete sem sequer se dar conta de estar na presença de uma palavra que não existe. Mas mesmo admitindo que por vezes os nossos sentidos nos falham, a verdade é que na maior parte das vezes, eles dão-nos uma informação bastante precisa sobre a realidade, isso não pode ser contestável. Sobre isto, Platão conta a história de três homens confinados a viver numa gruta desde nascença, acorrentados, sem nunca poderem mover-se. Por detrás dos prisioneiros, encontra-se uma fogueira que é usada pelos estranhos captores para projetar sombras de fantoches de pessoas, animais e objetos na única parede que os prisioneiros conseguem visualizar. Tudo o que os prisioneiros conseguem ver são as sombras projetadas, acreditando que estas são a única realidade que existe porque nada mais conhecem. Um dia, um dos prisioneiros consegue libertar-se e alcança o mundo exterior. Inicialmente, sente-se desorientado com a luz do Sol mas lentamente, o seu olhar vai-se adaptando. O prisioneiro começa então, pouco a pouco, a aperceber-se de quão pobre a sua vida anterior havia sido: contentara-se com o mundo das sombras quando por trás de si ficava o intensamente iluminado mundo real, em toda a sua riqueza. Também acorrentado, mas pelas suas limitações físicas, o ser humano consegue ver cerca de 0.000000000035% do espectro de radiação que conhecemos. Afinal a realidade na sua plenitude será talvez inatingível para nós, condenados como os prisioneiros de Platão a viver numa escura e fria gruta, onde apenas sombras do mundo dançam.

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Mas mesmo que com as nossas limitadas capacidades tenhamos um ínfimo acesso ao mundo, a verdade é que esse acesso existe. Portanto, mesmo que alguém tente convencer o leitor que este não tem contacto com a realidade (podendo estar por exemplo em coma), este pode responder perentoriamente que não. A menos, claro está, que esse mesmo alguém (um louco certamente) ousasse sugerir que o mundo só existe porque estamos a olhar para ele (imagine-se o absurdo de um pensamento assim). Mesmo que esta posição nos pareça quase esquizofrénica, sugiro darmos-lhe uma ténue oportunidade (apenas para a saúde do pensamento livre e democrático, claro está): consideremos um objeto como um livro. Normalmente, assumimos que juntamente com as sensações que temos de um livro (a sua cor, a sua forma, a sua textura e até mesmo o seu cheiro) existe também um livro não mental que causa estas sensações. Mas se o livro não mental desaparecesse e as sensações dele restassem, como é que saberíamos a diferença? Como é que podemos ter a certeza que existe alguma coisa lá fora por detrás da realidade que percepcionamos na nossa cabeça? Foi assim que George Berkeley, um filósofo do séc. XVII, radicalmente pensou sobre o nosso mundo. Segundo ele, são as nossas percepções que dão forma à realidade. Sem estas, o mundo poderá nem sequer existir.

Ora, pensamentos assim só podiam de facto ser idealizados por filósofos. Porque apesar de, sem dúvida, logicamente brilhantes, o cérebro científico do leitor não se deixará certamente levar com tanta facilidade por manobras abstratas que nada têm a ver com o nosso mundo atual, assente nos pilares das ciências exatas e das tecnologias, protegido destes estranhos pensamentos por estudos randomizados e meta-análises sublimes.

Estranho seria se encontrássemos evidência destes pensamentos bizarros em ciências exatas como a física. Numa experiência pensada originalmente por Thomas Young e redesenhada após os avanços de Albert Einstein sobre a natureza da luz, os físicos propunham tentar perceber o padrão que obteriam caso disparassem fotões, um de cada vez, em direção a uma barreira opaca com duas fendas que os fotões conseguissem atravessar. Como se estivéssemos a disparar bolas de paint-ball, uma a uma, por duas aberturas verticais a uma parede analisando o desenho que se obteria na mesma (sobre esta curiosa experiência, aconselho o leitor a visualizar o vídeo abaixo, narrado por Morgan Freeman). Surpreendentemente os físicos obtiveram como resultado desta experiência um estranho padrão de interferência em vez do expectável desenho de duas linhas retas verticais no detetor: para isto acontecer, significaria que cada fotão disparado teria de passar por ambas as fendas ao mesmo tempo e interagir consigo próprio, algo no mínimo absurdo. Afinal, por qual das duas fendas é que o fotão atravessaria a barreira opaca? De forma a esclarecer este paradoxo, os físicos decidiram então apanhar o dito cujo em flagrante delito colocando câmaras à entrada de cada uma das fendas, não deixando margem de manobra ao pobre fotão que se via assim encurralado. Mas, e peço aqui a máxima atenção do leitor, algo apenas imaginável no universo de J.K. Rowling aconteceu: sempre que o fotão era observado, deixava de exibir o seu misterioso comportamento anterior e passava a comportar-se como uma simples, inocente e miserável partícula, produzindo um padrão de duas linhas retas no detetor.

Assumir os resultados desta experiência significaria admitir que o simples ato de observação provocava o colapso da natureza quântica do fotão, que, a partir daí, comportava-se como uma partícula com uma posição fixa no espaço. Noutras palavras, a simples observação humana daria forma e posição concreta ao fotão. Por todo o mundo, centenas de vezes esta experiência foi repetida, e centenas de vezes o mesmo resultado foi observado para todo o tipo de partículas subatómicas, desde fotões a eletrões. A observação humana não só alterava o comportamento das partes mais pequenas do nosso universo como lhes dava na verdade um lugar concreto no nosso mundo. Teria Berkeley afinal razão?

Acorrentados pela nossa biologia, pensamos conhecer tudo sobre a natureza da realidade, enquanto sombras do mundo lá fora dançam em tom jocoso em frente aos nossos olhos. Receosos e perdidos com o apoio da física quântica a estranhas teorias que até nos seus conceitos mais abstratos negam a realidade, tentamos agora procurar uma resposta que venha ao menos resgatar as crenças mais básicas que cuidadosamente fizemos crescer dentro de nós, toda a nossa vida. No entanto, importa ainda abordar o diagnóstico inicial a que nos propusemos: Conseguirá o leitor, depois de tudo isto, defender que tem contacto com o mundo real? Não estará o leitor porventura numa estranha alucinação ou coma?

João Bastos, 4º ano