Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Imagem1

 

Este artigo foi o 3º classificado do Concurso  Prognóstico Incerto, promovido pela Revista RESSONÂNCIA.

Enquanto existir algo para descobrir, a humanidade não irá parar até obter esse conhecimento. Duas características do conhecimento são essenciais: é exponencial e é para quem o quiser obter. Se nos focarmos no caso da Medicina, evoluímos mais nos últimos cem anos, do que nos mil anteriores a esses. Tanto o acesso à carreira médica, como o acesso da população aos cuidados de saúde, tornaram-se processos mais democráticos e igualitários. O nosso SNS é um dos melhores a nível mundial e, apesar de longe da perfeição, é um motivo de orgulho para um país com as dificuldades económicas do nosso.

Olhando para os três grandes pilares da medicina: o ensino, a prática clínica e a investigação, vemos que nos encontramos num bom caminho, mas podemos lutar para construir um ainda melhor. No caso de Portugal, o desafio na prestação de cuidados e prática clínica é rentabilizar o SNS, fortalece-lo e torna-lo auto-suficiente, sustentável, tanto para o ambiente, para os utentes e para o Estado e com uma medicina de melhor qualidade para os doentes, uma medicina mais humana e personalizada. Para alcançarmos esse futuro, temos de começar agora, no ensino dos futuros médicos, na melhoria de oportunidades, no balanço que tem de ser feito sobre a quantidade versus qualidade em termos de estudantes de medicina e vagas à formação da especialidade. 

Apostar também na formação contínua dos clínicos e na literacia da saúde da população em geral. Alcançar uma população que seja o seu primeiro cuidador, que conheça os factores de risco e factores protectores, juntamente com um conhecimento básico das principais doenças com maior incidência a nível nacional, nomeadamente as doenças cardiovasculares, diabetes ou depressão, para nomear algumas. Uma população que tenha consciência que parte da manutenção da saúde depende do estilo de vida, que faz decisões inspiradas na manutenção e conservação do seu bem-estar diariamente. Talvez seja um objetivo um pouco utópico, mas é importante tornar cada pessoa responsável pela sua própria saúde, investindo na prevenção.

Por outro lado, a confiança da população na medicina que se pratica assenta muito na obtenção de resultados. É preciso tratamentos mais rápidos e eficientes, mais rentáveis e com o melhor prognóstico possível. Tratamentos que custem pouco e funcionem muito. Aqui entra a investigação. Mas não há investigação sem dinheiro, sem investimento privado e público. É então necessário criar uma consciência na sociedade civil para a necessidade desse investimento, que levará à pressão sobre governos e privados para que a investigação científica se torne uma prioridade.

É impossível conter o avanço científico num mundo onde existe internet, mesmo com o afastamento político de alguns países, julgo ser impossível o abrandamento da comunicação científica. A ciência não tem fronteiras, rara é a equipa composta por apenas uma nacionalidade, ainda mais raro o laboratório ou centro de investigação que não abra as suas portas a investigadores estrangeiros. A linguagem científica é global, porque a vontade de conhecimento é inerente a todos os seres humanos. As barreiras entre as diversas áreas científicas foram se esbatendo ao longo dos anos. A própria medicina tem crescido para fora de si mesma, aliando-se à informática, à mecânica, à robótica e à nanotecnologia, fundindo-se para criar métodos de diagnóstico mais precisos e tratamentos melhores.

O próximo passo é investir na relação entre médico-praticante e médico-investigador, entre medicina e as outras áreas do conhecimento, entre o clínico e a população. Devemos continuar a globalizar e a democratizar a ciência. Insistir num currículo de ensino médico que valorize ainda mais a investigação e desenvolva capacidade para que um médico não seja apenas um médico, mas um elemento que contribuí para o avanço do saber. Que o conhecimento médico não esteja reservado apenas a uma classe mas que seja acessível, com a maior exatidão possível, à comunidade em geral. Que os futuros governos se foquem na literacia da população com programas eficazes. Que o ocidente não olhe apenas para si, mas que ajude a tornar a oportunidade de nascer, viver e morrer com dignidade um direito universal.

Voltando a atenção para o SNS, que muitos consideram condenado, parece-me que não poderiam estar mais enganados. A maior economia mundial debate-se atualmente com algo que nós já conquistamos há largos anos, tornar a saúde acessível a todos. Podemos aprender bastante com o caso dos EUA: a saúde não é um negócio ou, melhor dizendo, quando se tenta enriquecer com a doença nunca se terá saúde. Daí a importância de tornar o nosso SNS como um dos pilares do nosso estado social e não deixa-lo tão vulnerável aos altos e baixos da economia. Outra forma de o fortalecer é apostar na manutenção da saúde em vez do tratamento da doença, ao contrário de um qualquer negócio, quantos menos “clientes” o SNS tiver, melhor será. Enquanto houver quem acredite no SNS, há esperança para todos os que dele precisam. 

Uns encaram o futuro com mais optimismo, outros com uma dose de pessimismo e há ainda aqueles que preferem o fatalismo. Talvez devemos enfrentar o que está para vir com uma dose de realismo e outra de esperança de conseguir alcançar melhor. A curiosidade está no ADN da nossa espécie e penso que a bondade também. O futuro da medicina será impulsionado por estas duas qualidades humanas: continuar a descobrir e utilizar o novo conhecimento para o bem. Construir uma medicina de todos e para todos.

Carolina Cerqueira Moreira, 4º ano