Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Sem Título 1

Meus caros, eu não sou louco. Não sou. Ninguém é, portanto eu também não sou.

(Até que os seus protestos ocasionais, os seus desabafos pouco frequentes se desenfrearam numa corrente incontida, desatada, que começou numa manhã como o monótono bordão de uma guitarra.)

Assumamos, à rebelia do bom espírito do rigor científico, que ser normal é o contrário de ser louco. Assumamos isto sem provas, nem tão pouco indícios de bom senso de que tal é remotamente aproximado à realidade. Ser normal é ser um determinado ponto (ponto preto, miudinho, como convém aos pontos que fazem parte dos gráficos importantes) numa determinada área de uma determinada estatística. Eu não sou louco, sou apenas um ponto de uma estatística diferente.

Não sou louco por olhar e ver mais do que lá está, por falar e dizer mais do que quero, mais do que sinto, mais do que sei. Não sou louco por me perder em ruas com sinais ou por naufragar na minha própria banheira. Por gritar até ficar rouco. Não sou louco por querer crescer, tornar me maior, ficar cada vez mais de um tamanho diferente. Por não querer ser tão pouco. Não sou louco por nada, não sou louco por ninguém, nem mesmo por mim sou louco.

Tenho loucura em mim, sim – graças aos céus – mas não sou louco.  

Um dia alguém vestido de verde disse que a única coisa que me faltava era (e vejam bem a loucura que não é dizer tal coisa), disse que a única coisa que me faltava era ser louco. Parei, é de bom tom parar para mostrar que estamos indignados, e pensei. Não me interpretem mal, teria parado e pensado mesmo que essa pessoa estivesse vestida de azul, mas não estava e eu também não levei a peito. Pensei no que seria se eu fosse louco.

Pensei no que seria atravessar longos corredores brancos, com portas à esquerda e portas à direita, mais portas à esquerda do que à direita, e cruzar me com os homens sãos.

Entro no corredor.

Um homem grisalho, curvo, anda perdido seguindo sinais com nomes que não compreende, treme ligeiramente porque nunca foi de grandes excessos, sobe de elevador ao segundo piso e senta-se ainda a tremer na única cadeira vaga na sala de espera. Olha para as mãos e acalma-se. O tremor desfaz-se em inquietação que escorre das mãos e as deixa repousar. Lá fora os que viraram na porta à esquerda errada chegam atrasados e já só se sentam na escada. Esses não tremem. Mas este treme já há largos meses, mais quando se esquece que treme e pensa nos longos corredores brancos. Tremia a mão esquerda e agora treme também a direita, ao menos que haja equilíbrio. Há de regressar uma vez e outra à mesma sala de espera esperando não apodrecer como os painéis de madeira que fingem fazer de paredes entre consultórios.

Estou no corredor.

Em sentido oposto passa por mim uma mulher, jovem, envolta num manto de rugas para que levem com respeito o seu coração de menina. Vai decidida, já sabe o caminho, sobe ao terceiro piso, o primeiro piso sobe de escadas, o segundo deixa que o elevador a carregue. Ajusta o lenço florido que traz à cabeça em jeito de cabelo, compõe a camisa, passaja com as mãos a frente da saia, aplainando-a, e dirige-se ao balcão de atendimento do hospital de dia. Toca sem querer na mama esquerda, coça inconscientemente o peito direito (ainda não se habituou ao que lhe esconderam sob a pele) e sorri, apresentando-se sem ser preciso dizer o nome.

Continuo no corredor

(Tinha-o tirado de casa com todos os avisos e advertências e havia-o levado para aquele caldeirão infernal onde não se podia respirar por causa do calor.)

Rodeado de multidões que me abraçam e cruzam e abrem-se para me contornar. Multidões cinzentas e negras misturam-se com multidões brancas, cedendo-lhes passagem. Tudo homens sãos, tudo mulheres orientadas, imagino-me o único louco.

Merda.

A loucura não basta, mas ser louco ajuda. Valorizo tanto os passos rápidos e seguros como o deslizar das rodas das macas, que oscilam, vacilam, e mantêm o seu trajeto. Ser louco acalma-me. Não quero saber das mãos que tremem ou do lenço que não engana ninguém. Só me falta mesmo ser louco. Esvaziar-me de preocupação pelos outros, subir até à insensibilidade e lá de alto olhar, tratar, cuidar. Distante. Ser louco dói menos. Receber o imprevisto como um objetivo em si e libertar-me das metas. Aproximar-me dos outros afastando-me, protegendo-me, cobrindo-me da academia com paixão e da ciência com loucura.

Larguemos tudo. Tudo o que é cortical, o que faz sentido, tudo o que roubámos aos outros. Que não reste nada que não pareça abismal ou que seja somente tão pouco, tão pouco menos que oco. Larguemos tudo, o vento encherá os panos.

(Nessa noite, ao jantar, o exasperante zumbido da cantilena tinha derrotado o rumor da chuva.)

Meus caros, quem me dera ser louco.

José Gavinhos, com excertos de Cem Anos de Solidão, adaptados.