Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Untitled 1

“Maybe each human being lives in a unique world, a private world different from those inhabited and experienced by all other humans… If reality differs from person to person, can we speak of reality singular, or shouldn’t we really be talking about plural realities?”

Philip Dick, escritor norte americano, lança o repto para que pensemos neste amplo, quem sabe interminável, mundo de realidades, em que definimos umas como mais verdadeiras que outras. E é por isso que pensar na esquizofrenia nos faz duvidar da própria realidade. Quando falamos de esquizofrenia não nos afivelamos na diferença aparente entre os mundos criados, mas sim na incapacidade de aceder a determinadas mundividências, descritas pelos doentes, e é nessa rotura que corriqueiramente demarcamos a doença.
Nada define melhor a Esquizofrenia do que o seu próprio nome, a junção de schizein, que significa fenda ou cisão, com phrenós, que significa pensamento, resultando numa amálgama que representa o sofrimento e desespero daqueles que padecem do quebrar da mente. Já para Platão (428-347 a.C.) as doenças próprias da alma, que é o perder a razão, têm como causa o corpo: se a alma é mais forte que o corpo, ela “sacode-o” por dentro e provoca-lhe “mania” – se é o corpo que é mais forte, a alma “cai” na maior das doenças – o alheamento da realidade.
O tempo passa e as interpelações erráticas dos media e as atribuições de características injustas a doentes esquizofrénicos vão-se somando. Ao abrir um dicionário de Língua Portuguesa encontramos loucura definida como “s.f. estado de louco; alienação mental; ato próprio de louco; temeridade; imprudência; extravagância”, cujo significado em muito se afasta dos usos populares da expressão, que é usada para adjetivar comportamentos tidos como estranhos.
Até aos anos 50, o diagnóstico de esquizofrenia sentenciava internamento ad aeternum, altura em que surgem os anti-psicóticos, nomeadamente a clorpromazina, revolucionando o tratamento destes doentes e trazendo consigo a esperança de uma recuperação mais concreta. Ainda no segundo quartel do século XX, no Hospital Júlio de Matos, criou-se capacidade para mais de 1200 doentes serem acolhidos, e os internamentos sempre foram em maior número que as altas.
Em Portugal, existem entre 40 a 60 mil pessoas com Esquizofrenia que, não raras as vezes, acusam pouco suporte social e familiar, e sabe-se hoje que as terapêuticas psicossociais têm elevado impacto na recuperação e integração destes doentes. Não só o desenquadramento social lhes pesa, mas também a semântica inoportuna e a falta de apoio, ou seja, à incapacidade destes doentes produzirem relações interpessoais soma-se a negação social e uma incompreensão generalizada sobre o que é ou como surge a doença mental.

A Loucura no Tempo

Somente no século XX Eugen Bleuler, psiquiatra suíço, distingue os doentes que possuíam alucinações auditivas, delírios e pensamento desorganizado da demência. Mas se percorrermos as avenidas das conotações já atribuídas à palavra “loucura” a estupefação não tarda. Na Grécia antiga era considerada um privilégio pois os gregos acreditavam que o “delirante” tinha a capacidade de comunicar com o sagrado, não havendo necessidade de exclusão.
Já na Idade Média, a loucura representava a cólera e a bondade de Deus, sendo que a exclusão social remetia para a salvação da alma. Durante a Inquisição, era entendida como manifestação do sobrenatural, muitas vezes associada à bruxaria, pelo que os tribunais dirigidos pela Igreja Católica perseguiram e puniram não só os hereges, mas também todos aqueles que aos seus olhos apresentavam comportamentos de loucos.
A partir do Renascimento, a pintura – que se afasta da tradição religiosa ao se dedicar ao fascínio do corpo – remete permanentemente à figuração da loucura, capaz de revelar a face inumana dos homens, constituindo um saber exotérico, proibido e inacessível à razão, detido apenas pela inocência dos “loucos”. Na era moderna, que se situa entre os séculos XVI e XVII, a sociedade esboça mudanças na forma como entende o indivíduo, surgindo a condição de cidadania, ainda que numa forma incipiente e longe de como a entendemos hoje. Os hospitais da época tinham a função de abrigar os pobres e os desempregados, servindo ainda de abrigo aos “loucos”, os “inúteis da sociedade”. O que mais choca nesta visão da doença mental é a invisibilidade e a forma impiedosa como não se fita um futuro com dias melhores. A cidadania nascia, mas apenas para uns.
Surgem hospitais com capacidade para milhares de doentes psiquiátricos, bem como para as vítimas do ócio, onde se usavam tratamentos violentos, como o encarceramento e os banhos gelados. Técnicas, na altura, tidas como adequadas, até que Philippe Pinel (1772-1826) altera o paradigma dos tratamentos psiquiátricos. O psiquiatra francês liberta os doentes das correntes a que estavam presos e o seu discípulo Jean Esquirol dissemina as ideias pela Europa. A proposta terapêutica de Pinel baseava-se no tratamento moral, centrado no isolamento do doente do mundo exterior, através do asilo, para corrigir os erros da razão, com vista a recuperar a racionalidade.
Segundo Paul Bercherie, Pinel funda a tradição clínica como orientação consciente e sistemática. Os hábitos bizarros, as atitudes estranhas, os gestos e olhares são registados e comparados com o que está por perto, com o que é semelhante ou diferente, permitindo reconhecer o que é saudável e o que é patológico.
As comunidades terapêuticas surgem em Inglaterra, durante a II Grande Guerra, remetendo para um processo de reformas institucionais, restritas aos hospitais psiquiátricos, marcadas por medidas administrativas e democráticas com o objetivo de criar novas dinâmicas face ao asilo. Na década de 60, surge nos EUA, por incentivo de Kennedy, a Psiquiatria Preventiva ou Comunitária, como demarcação de um novo território para a psiquiatria, no qual a terapêutica das doenças mentais deu lugar a um novo objeto: a saúde mental.
É Kraepelin (séculos XIX e XX) quem descreve duas formas fundamentais de doença: a que cursa com défice ou deterioração, que se designa “demência praecox” (hoje, esquizofrenia), e a que cursa com episódios maníacos, hipomaníacos, depressivos ou mistos, a que se chama “loucura maníaco-depressiva”. O termo doença bipolar substitui o de psicose maníaco-depressiva devido ao carácter estigmatizante da primeira.
Em mais de dois mil anos a interpretação das doenças da mente mudou sobejamente, até que a Psiquiatria se afirma como verdadeira disciplina clínica. Aos olhos de uma sociedade avançada queremos hoje erradicar a estigmatização e a dúvida de que as doenças mentais não são doenças do corpo.

A esquizofrenia é a forma de doença mental mais grave, afetando 1% da população, sobretudo jovens adultos, que de modo súbito ou progressivo apresentam ideias irreais e bizarras, que não são acessíveis à argumentação lógica, acompanhado-se de vozes com conteúdos perturbadores e tendência para o isolamento social e afetivo. Conhecem-se vários mecanismos etiológicos que contribuem para a doença, como fatores genéticos, fatores associados ao neurodesenvolvimento e aos neurotransmissores (teoria dopaminérgica), interferência imunológica, fatores ambientais e perinatais e ainda o abuso de substâncias.
O tratamento da esquizofrenia passa por abordagens medicamentosas, psicológicas e sociais. Prevê-se o surgimento de novos fármacos, bem como um refinamento da psicoterapia. As terapias somáticas, como a estimulação cerebral profunda podem ganhar uma nova relevância, aliadas ao desenvolvimento de uma rede de cuidados para a saúde mental que permita uma reabilitação e inserção na sociedade cada vez mais eficaz.

E no futuro?

Povoou durante longos anos a ideia do louco como uma figura errante e ambígua que ameaça a Europa dos interesses económicos. Em 1516, Thomas More inaugura as obras que propõem projetos alternativos para a vida em sociedade, as utopias, e hoje ao debruçarmo-nos sobre o futuro logramos uma sociedade de igualdade, onde a variável discriminação é eliminada e onde a diferença é tida como fator de vantagem.
Como Oscar Wilde um dia escreveu “All my friends are like that, half foolish, half serious.” traduzindo a ideia de que a loucura está em cada um de nós. Resta saber rasgar a expressão severa com que a revestimos, figurando-lhe uma ampliação nos domínios da arte, da felicidade e do amor.
E é neste admirável mundo novo que arquitetamos os universos de realidades distintas e onde habitamos compenetrados nas rotinas, nos dialetos e nos costumes que criámos, até que um dia damos conta do afastamento causado por esta criação, que nos dizem ser distópica.

Deixo o epílogo a António Lobo Antunes:

“No fundo o que é um maluco? É qualquer coisa de diferente, um marginal, uma pessoa que não produz imediatamente. Há muitas formas de a sociedade lidar com estes marginais. Ou é engoli-los, tranformá-los em artistas, em profetas, em arautos de uma nova civilização, ou então vomitá-los em hospitais psiquiátricos.”

Sérgio Bronze, 4º ano