Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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E se ficássemos amigas a cada cinco minutos? A Sra Amélia e a Sra Deolinda estão hospitalizadas pela sua patologia neurodegenerativa. Têm Alzheimer num estádio avançado, o que faz com que não se lembrem dos cinco minutos que já passaram. A Sra Deolinda chegou dois dias antes da Sra Amélia. Estava agitada, deambulava por todo o lado. Dava voltas em volta de outros, que deambulavam também. Queria sair dali e qualquer pessoa a incomodava. Uma solitária. A Sra. Amélia chegara uns dias antes, porém não acompanhei bem a sua entrada. Apesar de serem ambas dementes, não o são completamente. Conseguem ter uma conversa, ainda que simplista.

Conheceram-se no corredor, certamente. Ou na mesa da sala onde velhos rostos olham para uma televisão acabada de estrear – ou para os seus próprios pés, quando a cabeça cai, tal é a sonolência. De qualquer forma, não importa. Ambas se esqueceram do seu primeiro encontro. Duvido sequer que se tenham apresentado uma à outra. Mesmo que o tivessem feito, essa memória seria apagada. Viver um tempo contínuo, sem paragens, sem evolução, valoriza o presente: o único momento que as pessoas têm como certo. O mais importante foi encontrarem-se. Um encontro que pode ter sido visual, entre olhares senis, ou táctil, entre toques subtis. De qualquer forma as suas energias ou cruzaram-se ou atraíram-se como ímanes.

Desde então, a Sra Amélia e a Sra Deolinda estão sempre juntas. Sobretudo, deambulam juntas. A agressividade da Sra Deolinda atenuou-se. Agora preocupa-se em ajudar a sua nova amiga, que está mais debilitada fisicamente. Falam também. Ou trocam palavras. Conversas que se apagam em cinco minutos. “Vens?” Escutamos a voz gentil da Sra Deolinda, para a qual a Sra Amélia se dirige, contente. Uma corrida de pequenos passos, tronco inclinado para a frente e olhos ansiosos de chegar ao seu destino. À mesa, elas não se olham. Muito menos se tocam. Estão apenas. Sós, uma ao pé da outra. Algumas noites encontrámo-las na mesma cama. A Sra Deolinda dizia que era a sua irmã que estava deitada à sua beira. A Sra Amélia intrigava-se por acordar com a mulher de cabelos despenteados do seu lado. Porém, sentia-se bem nessa cama. Confortável, acarinhada.

Um dia, a Sra Deolinda teve alta. Soube-o mesmo antes de ir ao seu quarto. Cruzei-me com a Sra Amélia que chorava nos corredores. “Que se passa consigo?”- perguntei. “Estou farta de tudo! Não me sinto bem, não me chateies!”. A voz angustiada demonstrava a sua ansiedade. Tentei fazê-la andar, mas mal se segurava em pé. As suas pernas tremiam, o equilíbrio era dificultado pelo apoio frágil dos seus braços nos meus. Os pequenos passos deixaram de ser fluídos como dantes. Eram agora passos inseguros. “Deixa-me sozinha! Estou farta de tudo, não me chateies!”.

A essência das relações ultrapassa a cognição. Esta história é a prova de que a emoção é uma das capacidades mentais mais difíceis de extinguir. A Sra Deolinda tinha uma síndrome frontal, e por isso estava desinibida. Não respeitava ninguém, excepto a sua amiga, pela qual tinha bastante empatia. A química que pode existir entre duas pessoas é uma das luzes da humanidade. Desconhece-se porque é que existe, quando existirá e com que intensidade. Acontece, inesperadamente.

Baseado numa história verídica.

Toulouse, 16 de abril de 2016

Júlia Machado Ribeiro, 5º ano