Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Ressonas 26 01

Ganhei, ultimamente, este estranho hábito de passar longos períodos calcorreando livrarias. Gosto de todo o tipo de livrarias, desde as amplas e espaçosas às raquíticas e compactas, desde as modernas revestidas a estantes planas, brilhantes e, aparentemente, pintadas de fresco às antigas talhadas em estantes de madeira escura, lascadas e cobertas de pó.
Desde tenra idade que busco cumprir a fruição de três prazeres intelectuais, o de compreender a química e a física espaciais, o de descodificar o modo como funciona o cérebro humano e, o de alimentar constantemente o meu próprio cérebro com generosas porções de “ração” livresca. Admito que habituei mal os meus neurónios e que, actualmente, a sua voracidade me obriga, por si só, a passar longos períodos de tempo em lojas de livros e bibliotecas.  O seu “paladar” tornou-se particularmente exigente, selectivo e carente no que à originalidade diz respeito.  
Estes passeios pelas livrarias permitem-me cumprir esse prazer superior, e também, confesso, alegrar dois sentidos, a visão, pela satisfação da minha obsessão estética (tudo deve geometrica e cromaticamente encaixar-se), e o olfacto, pela possibilidade de sentir o aroma a papel de um livro novo (de entre todos, o meu aroma preferido).
Sou também um apaixonado pelo Ser Humano em toda a sua complexidade emocional e intelectual. Passei a parar para apreciar, sem vergonha, os traços longilíneos, curvilíneos, angulosos ou irregulares de uma face em repouso, o modo como os músculos faciais se contraem, ora de modo convulso numa gargalhada, ora de modo fino num levantar de sobrancelha compondo um esgar de surpresa, desfazendo momentaneamente a harmonia da continuidade das linhas de base, e redefinindo, no momento seguinte, a estrutura global do fácies pela criação de novas linhas e combinação destas com as anteriores. Também a linguagem corporal me capta a atenção e desperta a vertente mais analítica do meu raciocínio procurando reconhecer padrões e variações. No fundo, fui-me especializando, numa base meramente empírica, na apreciação da reactividade emocional humana.
Era apenas mais um final de tarde daquele Janeiro gélido. Ao tirar a bata e ao colocar o estetoscópio na pasta delineei mentalmente um plano para conseguir deixar a pasta em casa e chegar antes da hora de encerramento a uma livraria que pretendia visitar havia já algumas semanas. Procurava avidamente um exemplar de De Profundis, Valsa Lenta de José Cardoso Pires e outro de A Morte de Ivan Ilitch de Lev Tolstói e pretendia cumprir pelo menos uma volta de reconhecimento pelo espaço.


Chegado à “terra prometida” deparei-me com uma divisão vasta, de tecto alto, preenchida por estantes simples, castanhas, de tonalidade clara, revestindo toda a extensão das suas paredes. Os livros, impecavelmente organizados por autor, colecção e ordem cronológica, alinhavam-se de forma perfeita, sem espaços desocupados entre si e com notável harmonia cromática. Pairava no ar um doce aroma a café e a chocolate, que tratei imediatamente de neutralizar, folheando aleatoriamente um exemplar da nova edição do Livro de Crónicas de António Lobo Antunes. Detectei a existência de um balcão, onde se perfilavam duas funcionárias a quem solicitei os dois livros que procurava. Para meu grande desânimo, e pela quinta ocasião consecutiva após quatro visitas a quatro espaços distintos, foi-me dito que não existia disponível para venda qualquer um dos livros que pretendia. Resignei-me ao fracasso do meu primeiro objectivo e dediquei-me então à fruição do segundo, passeando calma e lentamente por entre as cordilheiras de livros, sentindo o toque das capas duras dos clássicos, lendo contracapas de policiais escandinavos, abrindo aleatoriamente os Four Quartets de T.S.Eliot (indubitavelmente o seu Magnum Opus) e, claro, observando e analisando o comportamento dos meus companheiros de vício. Apercebi-me, subitamente despertado da minha “anestesia”, da existência de uma pequena cafetaria ao fundo da livraria. Tratava-se de uma subdivisão simples, despretensiosa, aberta, de aspecto limpo e cuidado, com meia dúzia de cadeiras e mesas dispostas em quadrado. Agradou-me particularmente a geometria do arranjo mobiliário e o convite à comunhão de leitura e à partilha de experiências que o mesmo proporcionava.
A minha atenção foi imediatamente captada por uma rapariga com os seus vinte e cinco, trinta anos, de pele cor de pão salpicada por numerosas sardas, face linear traçada a pincel, olhos verdes de apreciável diâmetro, orelha esquerda ornamentada com um piercing (pormenor que me entusiasmou pelo toque de rebeldia que comportava), e uma boca pequena que se arqueava num sorriso calmo e contemplativo enquanto lia um calhamaço grosso de capa indistinta.
Ponderei cometer, na perspectiva de me aproximar rapidamente, um pecado supremo, o de ser intelectualmente desonesto e escolher, para folhear, não o livro que mais me interessava, mas sim aquele que melhor “cartão de visita” constituiria. Não conseguindo descortinar pela capa o título ou o autor do livro em cuja leitura a rapariga estava absorta, optei por jogar pelo seguro e por pegar num exemplar de Anna Karenina de Lev Tolstoi, obra certamente equivalente em termos de volume físico e, potencialmente, equivalente em termos de dimensão intelectual. Lancei uma breve mirada ao espaço circundante à cadeira em que a rapariga se sentava e confirmei a existência de uma cadeira vaga ao seu lado.
Sentei-me, após um breve cumprimento com o olhar, na cadeira vizinha e fingi-me absorto na leitura de páginas que já havia lido no passado e que já conhecia sobejamente. Aproveitei esse período de estóica representação para discretamente lançar um olhar às páginas do livro que a minha companheira lia em sôfrega busca por um rodapé ou por um cabeçalho que me orientasse a “navegação”.
Após alguns malabarismos cefálicos e oculares, que temo terem sido muitíssimo mal disfarçados, consegui descortinar que lia o primeiro volume de À la recherche du temps perdu de Marcel Proust. Sendo, também eu, um apreciador da escrita de Proust, e tendo, também eu, por diversas ocasiões, tentado ler por completo esta obra dispersa por sete volumes colossais, senti um misto de solidariedade, empatia e identificação plena.


Resolvi, num período de pausa da minha companheira, interpelá-la após me ter apercebido dos seus olhares furtivos em direcção às páginas do meu livro:
– A escrita de Proust é fascinante, surpreende-me haver alguém da minha idade que tenha também gosto em ler uma obra tão extensa e tão descritiva…
Obtive em troca metade de um sorriso que deixou antever uma fileira de dentes brancos, perfeitamente alinhados, e uma resposta imediata, com um sotaque que permitia antever que a minha interlocutora, apesar de ler em português, não partilhava comigo a nacionalidade. – Proust é um autor fabuloso, tal como Tolstói. Permita-me dizer-lhe que tem bom gosto!
A formalidade do tratamento e a eloquência com que se exprimiu na minha língua intrigou-me. Trocámos algumas impressões relativas a algumas obras de Proust, Tolstói e de outros autores clássicos. Fiquei impressionado, embora tenha tentado frenar a expressão dessa surpresa, com a sua cultura livresca e, especificamente, com o seu conhecimento dos clássicos. Claramente acima da média, claramente com um conhecimento mais profundo de obras que também eu tinha lido, claramente mais escorreita na forma como dissertava acerca das mais variadas temáticas. Expliquei-lhe que tinha vindo em busca, não do tempo perdido, mas de duas obras, uma das quais também de Tolstói. Respondeu-me afirmando que conhecia perfeitamente a obra em questão e que valia claramente a pena o esforço de a tentar encontrar. Descobri que se chama Anna (curiosa coincidência), que é sueca e que estudou literatura em Cambridge. Vaporizou um pouco da aura de originalidade que a envolvia ao contar-me que conhecera Lisboa em pleno Verão há alguns anos atrás e que, desde então, volta sempre que lhe é possível, mesmo que apenas por um par de dias. Gabei-lhe a capacidade extraordinária de se exprimir em português, tendo-me Anna informado que o português é uma das línguas que sempre estudou desde tenra idade, a par do francês. A complexidade da língua e a riqueza gramatical e de vocabulário apaixonam-na. Procurei perceber o que conhecia de literatura portuguesa e se apreciava algum autor em particular. Referiu-me apenas alguns poemas e textos esparsos de Fernando Pessoa, como seria expectável vindo de alguém com um conhecimento superficial de literatura portuguesa. De autores suecos apenas consegui elencar os nomes que havia lido há minutos atrás nas capas dos policiais escandinavos empilhados num expositor a escassos metros de distância.
A conversa prolongou-se por mais alguns agradáveis, porém demasiado fugidios e voláteis, minutos (alguém sacudiu a ampulheta com demasiado vigor…). Fomos interrompidos pela vibração do meu telemóvel, que, infelizmente, atendi. A minha presença era necessária noutro local, no cumprimento de um compromisso de que me havia olvidado por completo. Despedi-me cordialmente, à boa maneira nórdica, com um suave shake-hands. Levantei-me, fui colocar o exemplar discretamente à prateleira, e retirei, de duas prateleiras acima, um exemplar d’O Livro do Desassossego, que levei ao balcão vizinho. Disse, praticamente em surdina, à funcionária:
– Embrulhe, por favor, este livro, e embrulhe também um exemplar d’O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago. Vai fazer-me o favor de entregar o embrulho àquela senhora quando ela sair. E, já agora, empreste-me um papel e uma caneta. Escrevinhei na minha letra alta, esguia e bem comprimida (ao estilo de um código de barras, encriptando o meu sentimento): “De Pessoa para A pessoa que fez o meu dia. Es war ein vergnugen” (dizia-me o Google Tradutor, consultado à pressa, que significa “Foi um prazer”). Escrevi abaixo o meu nome e o meu número de telemóvel e lancei o bilhete e duas notas de vinte euros para o balcão.

Miguel Esperança Martins, IAC