Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
RESS 28 01

Desapareci, mais rápido do que a minha própria sombra, pelas portas de vidro e passei a viagem inteira de táxi até ao Chiado esperando que o telemóvel se iluminasse com uma mensagem. Nem me importava o conteúdo, só me importava realmente que uma mensagem com o indicativo internacional da Suécia chegasse.
Esperei vários dias, praticamente uma semana. Sempre que me sobrava algum tempo no serviço, metia a mão pela abertura lateral da bata para resgatar o telemóvel do bolso das calças. Sempre esperando uma mensagem que teimava em não chegar. Comecei a conjecturar teorias. Provavelmente os livros foram repostos na prateleira, o bilhete lido pelas funcionárias da loja e os quarenta euros metidos ao bolso. Ou talvez o embrulho tenha sido feito e o bilhete colocado no seu interior, mas a sua entrega não foi possível por qualquer motivo que ultrapassava a minha capacidade de entendimento e imaginação…
Habitualmente rígido comigo próprio, como não o era até há uns anos atrás, obriguei-me a ser racional e a não me deslocar sem motivo até aquela livraria na secreta esperança de encontrar Anna sentada numa cadeira a folhear outro volume da obra de Proust. Naturalmente a carapaça que erigi em torno de mim próprio acabou por se quebrar e inventei, com o pretexto de alimentar os meus ávidos neurónios, um motivo que me obrigava a lá voltar. Sempre pretendi adquirir a Obra Aberta de Umberto Eco, e soube, via correio, que acabara de ser lançada uma nova edição da Relógio D’Água. Sendo preciso, aquela era a livraria mais próxima do trajecto que tinha de seguir para um jantar familiar a uma sexta-feira. Escusado será dizer que por mais ténue que fosse a minha esperança (embora ela esteja sempre comigo por motivos óbvios), por menos lógico que fosse o meu raciocínio, e por mais baixas que fossem as probabilidades, eu acreditava, bem no âmago do meu ser, que iria entrar e que, após uma rápida fiscalização do conteúdo das estantes e dos expositores, a iria encontrar sentada na mesma cadeira, lendo compenetradamente. Consequentemente conversaríamos sobre literatura, faltaria ao jantar de família dando uma desculpa forjada à última da hora, convidá-la-ia para jantar num local já por mim idealizado (o largo do Teatro de São Carlos parecia-me apropriado, enquanto berço de Pessoa), e falaríamos da humanidade, da Vida, do mar, das estrelas…
Entrei, apressei a minha “passeggiata” habitual e eis que, endireitando os óculos que teimam em descair para o lado direito, e permitindo aos meus olhos míopes focar, a vi… Sentada, com um livro no colo, precisamente na mesma postura. Esplêndida, irresistivelmente encantadora no exercício da sua leitura expressiva, esboçando esgares e pintando sorrisos. Milagre…
Insisto na desonestidade intelectual e escolho um exemplar de The Sound and The Fury de William Faulkner e encaminho-me cautelosamente para a cadeira vizinha que se encontrava, uma vez mais, vaga. Ao aproximar-me vejo-a erguer a cabeça do exemplar de Madame Bovary de Gustave Flaubert que lia e alargar o sorriso que já lhe preenchia parcialmente a boca. Devolvo-lho e sento-me.
– Hoje tenho The Sound and The Fury comigo, espero que não existam coincidências e concordâncias quanto ao título como aconteceu na última ocasião com Anna Karenina
Ela riu-se. Parecia divertida. Respondeu-me num português gramaticalmente perfeito, embora deliciosamente cunhado pelo seu sotaque.
– Muito obrigado pela sua oferta. Foi muito generoso da sua parte.
– Já começou a ler algum dos livros?
– Comecei pelo Livro do Desassossego, mas pareceu-me um pouco complexo pelo tipo de recursos estilísticos utilizados…
– Não é uma obra fácil de ler e de digerir, e não deve ser lida como se de um romance se tratasse. Recomendo que o tenha na sua mesa de cabeceira e que vá lendo umas páginas sempre que lhe apetecer, pouco a pouco. Sem pressas.
– Procurarei seguir o seu conselho.
– Leu o bilhete que acompanhava os livros?
– Li sim. Já percebi que gosta de brincar com as palavras.
– É… De facto é algo que me dá um certo prazer… Mas se se recordar eu não escrevi apenas palavras…
– Eu recordo, recordo perfeitamente os números. Mas sabe… Eu comporto-me um pouco à imagem das personagens dos livros que leio, creio numa construção diferente de uma relação de proximidade, é difícil de explicar…
– Não precisa de explicar absolutamente nada. Podemos perfeitamente usufruir desta feliz coincidência e falar um pouco daquilo que nos aproxima. Conte-me, o que está a achar de Madame Bovary?

Mantivemos um diálogo intenso, uma vez mais de conteúdo fosforescente, e de forma efervescente. Tomei, num curto espaço de tempo, mais um banho de cultura.
Apesar da resposta pouco auspiciosa aos algarismos que escrevinhei no bilhete, sabia que a impressão que causara não era totalmente negativa pois caso contrário não existiria a possibilidade de manter este nível e esta profundidade de troca de ideias e de argumentos. Paralelamente, qual Ícaro em voo ascendente, cria que também Anna voltara, apesar dos seus princípios comportamentais parcamente elencados em virtude do meu corte na conversa e da sua bem disfarçada timidez, porque gostara de falar comigo e gostara da minha atitude. Após um momento de pausa na conversa, decidi que seria eu a determinar o compasso dos acontecimentos seguintes. Fixei os meus olhos nas páginas do livro que segurava e esperei pelo momento em que Anna, mais tarde ou mais cedo, se levantaria e abandonaria a livraria face à proximidade da hora de fecho. Ponderei seriamente sobre o convite para jantar que havia idealizado. Fazê-lo ou não fazê-lo seria sempre jogar no risco absoluto. Optei por não fazê-lo de modo a não criar barreiras pouco convenientes, correndo, no entanto, o risco de não a ver tão cedo.
Efectivamente, ao fim de cerca de dez minutos, Anna levantou-se, estendeu-me firmemente a mão, abriu outro sorriso cordato, e desejou-me um bom fim-de-semana, e, caso não nos voltássemos a encontrar, boas leituras e o maior sucesso na minha área profissional, independentemente de qual fosse. Agradeci, Anna repetiu o agradecimento pela minha oferta, virou costas graciosamente, dirigiu-se a uma das estantes onde depositou com mãos de veludo o livro que tinha folheado e saiu directamente para a rua.
Dei por mim, a caminho para o jantar e durante toda a semana seguinte, a censurar a quebra óbvia que havia existido na lógica que, aparentemente e até então, regia todo o meu pensamento e todas as minhas acções. Martirizei-me ao pensar no quão patética tinha sido a minha reacção perante um encontro inesperado com uma mulher culta que me havia momentaneamente estonteado, absorvendo-me, por dias, o foco de atenção e a clareza de pensamento. Cheguei a pensar que talvez fosse melhor adoptar como novo princípio a supressão dessa minha tentativa de leitura permanente da reactividade emocional daqueles que me rodeiam nos mais diversos contextos. Considerei essa postura como o principal catalisador da disrupção evidente da minha linha comportamental.
Passaram-se algumas semanas e o episódio acabou por se dissipar na bruma do quotidiano, colapsada pelo peso de outros pensamentos e pela densidade de novas memórias.
De regresso a casa, na sequência de um passeio revigorante de sábado à tarde pela Ribeira das Naus resolvi passar pela livraria. Ao aproximar-me da artéria onde fica situado o espaço lembrei-me que este era um dos pontos do roteiro que me faltava cumprir na busca por mais um livro, este de Atul Gawande, que teimava em não aparecer na prateleira de nenhum estabelecimento. Mandei parar o táxi à porta da livraria e entrei, sem urgência, passando as pontas dos dedos pelas lombadas dos novos livros que preenchiam as estantes. Dirigi-me ao balcão do fundo e preparava-me para cumprimentar uma das duas funcionárias que ali estavam quando uma delas se antecipou.
– A sua encomenda chegou há semanas… Até estranhámos a sua demora… Ainda por cima estando o livro já pago.
– Como? Mas eu não fiz encomenda alguma…
– O seu nome não é Miguel Esperança Martins e o seu contacto telefónico não é este? Encomendou este livro e pediu que fosse embrulhado assim que chegasse correcto?
Sorri. Compreendi de imediato.
– Não fui eu quem o encomendou, mas esse é o meu nome, esse é o meu contacto e o livro é de facto para mim.
– Aqui tem.
– Perdoe-me a questão, mas qual é a data da encomenda?
Correspondia ao dia após o meu segundo encontro com Anna a escassos metros daquele balcão. Tentei confirmar a minha suspeita de modo subtil.
– Mas diga-me uma coisa, não foi a senhora que fez a encomenda certo?
– Não, foi a minha colega que só cá está ao fim-de-semana.
Entregou-me o embrulho pequeno. Será que havia seguido o meu método de comunicação à distância?
– Existe algum bilhete que deva ser entregue com o livro?
– Deixe-me verificar aqui nos Post-Its…tem razão. Existe, de facto. Deixe-me ver se o encontro.
Sorri novamente e dirigi-me ao expositor onde repousavam ainda alguns exemplares da nova edição do Livro de Crónicas de António Lobo Antunes. Abri um ao acaso e senti o aroma a papel de livro novo. Era ainda mais intenso do que o aroma do exemplar que semanas antes havia aberto aquando da minha primeira visita àquele espaço. Ou isso ou o meu limiar de estimulação dos centros do prazer estava extraordinariamente baixo.
Ouvia ao longe gavetas a ser furiosamente abertas e fechadas. Até que…
– Malandro, parece que está vivo… Cá está ele!
Saltou finalmente das mãos da funcionária um pequeno envelope rectangular de cor azul clara. Ao pegar-lhe notei a textura macia do papel e o leve cheiro, ainda conservado, a um perfume que até então desconhecia conhecer, mas que me pareceu estranhamente familiar.
Agradeci, peguei no embrulho, peguei no envelope, esqueci o livro de Gawande que queria comprar, meti tudo no saco e fui sentar-me na cadeira onde sempre me sentei.
Quando abri o envelope e principiei a leitura das palavras redigidas por Anna, escritas em caligrafia particularmente elaborada, senti que era ela que as pronunciava, sentada, com um livro aberto entre as mãos, na cadeira ao lado da minha.

“Para além de uma Anna, Tolstoi também tinha um Ivan (que creio que ainda não conhece) na sua galeria de personagens. Quanto a si, a Anna personagem já conhece, falta-lhe conhecer, finalmente, a Anna real. Até breve. PS: Ofereceu-me um livro sobre a morte de um dos muitos que Pessoa criou, eu ofereço-lhe a maior obra-prima jamais escrita sobre o processo de morrer. Aproveite.”
Descolei com cuidados de cirurgião todos os pedaços de fita cola que permitiam ao embrulho manter a forma e, quando o último saiu, revelou-se, em todo o esplendor da capa clara, em edição com prefácio de António Lobo Antunes, A Morte de Ivan Ilitch.
Só podia ser assim. A Anna, de comportamento decalcado do das personagens dos livros que lia, misteriosa, fugidia, inteligente, capaz de um volte-face quase cinematográfico, saía de cena como uma qualquer dama de um romance de Proust ou Flaubert. A verdadeira Anna, encapsulada naquele invólucro de intelectualidade e frieza aparentemente impenetráveis, revelava, no último instante, um pouco da sua matéria, afinal de carne e osso e não de sonhos e poeira cósmica.
Destapou um pouco do véu e saltou, na sua dimensão mais terrena, directamente para a galeria das personagens que me são queridas na narrativa da minha vida.
Ali fiquei eu de envelope e livro na mão fitando a cadeira, compondo os óculos, redireccionando o olhar para as estantes. Porque tudo isto se poderia apenas passar ali, naquele local, naquele espaço. Entre estantes…


Miguel Esperança Martins, IAC