Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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«We’ve been all the way to the moon and back, but have trouble crossing the street to meet the new neighbour. » (Dalai Lama XIV em Paradox Of Our Age)

Esta é uma frase que resume tudo: que resume a nossa sociedade, uma sociedade que alcança os feitos tecnológicos mais invejáveis, mas que, ainda hoje, tem dificuldade em alcançar o outro. No fundo, uma sociedade que está sempre um passo à frente, que não pára, que não olha para o que está em redor, para o que há de mais simples e puro… de mais essencial.

Infelizmente, também na classe médica estamos, por vezes, perante este mesmo panorama. O avanço tecnológico da Medicina tem vindo gradualmente a formatar a ação do médico e a robotizar a sua componente humanitária. Tem-se vindo a perder a forma autêntica e genuína de ser médico. Tem-se vindo a construir um médico que está cada vez mais centralizado no próximo passo do exame do que no doente que tem à sua frente, que é um doente único e fragilizado, ao contrário das máquinas e procedimentos, que são estáveis e inalteráveis.

Júlio Isidro, numa entrevista recente à Ressonância, mencionou essa mesma situação: «Aquilo que eu desejaria é que houvesse médicos que não se importassem e que gostassem de ser João Semana, que é uma coisa bonita, é um médico que preenche o coração das pessoas. Nós sentamo-nos à frente dele e, em vez de estar apenas um técnico (a Medicina tem muita técnica e cada vez tem mais), está também um ser humano.» Como foi dito, o técnico não pode nunca substituir o médico. É certo que o médico é também um técnico. Mas, acima disso, é uma pessoa. É uma pessoa que deve “preencher o coração” dos seus doentes, deve ouvi-los e entendê-los. Se o fizer, já estará a cumprir parte da sua missão para com os seus doentes. Já estará a criar uma relação de empatia, mas, acima disso, de compaixão que, como João Lobo Antunes referiu uma vez, «é mais do que a simples empatia, vai mais fundo. E cada vez mais interessa às neurociências, pois parece que o nosso cérebro está equipado para sentir compaixão, ou seja, para viver o sofrimento do outro. Apesar do progresso, e ainda mais numa especialidade altamente tecnológica como a minha, nunca vi, não conheço arma nenhuma, de qualquer natureza, seja medicamentosa seja instrumental, que faça anular a necessidade da compaixão.» Não nos esqueçamos, então, desta necessidade do ser humano de «viver o sentimento do outro», sobretudo numa profissão que tanto o exige.

Por um lado, é importante reconhecer que um médico é também um ser humano capaz de nutrir compaixão e de compreender o outro. Por outro lado, um médico deve assumir o papel do médico que é e conhecer os princípios éticos implícitos na profissão. O próprio Júlio Isidro mencionou-o durante a entrevista: «(…) o que será preocupante é quando o exercício da medicina se transforma num negócio. Eu não nego a necessidade que seja um negócio, mas todos os negócios, como tudo na vida, têm princípios éticos e regras. Como um documentário que eu vi há um ano num programa dos 60 minutes a propósito da medicina nos Estados Unidos, em que o médico é controlado por um computador para saber quantos minutos é que consagra a cada doente e, portanto, em princípio, a produtividade do médico é medida pelo número de consultas que ele dá. Eu desejo que esse tipo de mundo não chegue cá. Admito que há muita pressão e admito que provavelmente nalguns casos até seja o próprio médico a ter de abreviar a consulta, porque, se calhar, tem doentes de mais. Mas isso é a outra questão. Agora esta comercialização absoluta e imoral da saúde é uma coisa que me repugna.».

Um médico tem, assim, de ter sempre presente os valores morais que jurou enquanto membro da profissão médica e garantir, sempre, que esta é exercida «com consciência e dignidade e de acordo com as boas práticas médicas», fomentando «a honra e as nobres tradições da profissão». Um médico nunca deveria deixar que a corrupção do sistema afetasse o compromisso que assumiu. A sua prioridade deveria ser sempre o doente, e não quaisquer outras vantagens que pudessem advir da profissão.

Ao longo dos tempos, várias personalidades médicas foram exemplos notáveis desta conjugação do técnico e da pessoa que devem estar englobados na profissão de médico. O professor João Lobo Antunes é um desses exemplos e, Júlio Isidro, que teve o privilégio de com ele privar, partilhou connosco as seguintes palavras: «O seu legado é um exemplo de trabalho, de rigor. (…) posso até falar-vos de uma intimidade… o João estudava tanto que, uma vez, lhe disse ‘Então e tu não fazes um intervalo de estudo?’ ‘Sim, de vez em quando paro de estudar e faço um jogo de xadrez sozinho’. Jogava ele contra ele. Isto era uma coisa notável. E, portanto, foi um homem de uma enorme capacidade de trabalho, naturalmente inteligentíssimo, e que trouxe para as questões da Saúde muitas questões filosóficas. Ele tem obra publicada com muito pensamento que não é apenas o pensamento médico, é um pensamento filosófico sobre a vida e sobre a morte e sobre a existência do homem.»

Posto isto, há três elementos fundamentais na profissão de médico. O trabalho é um pilar essencial, pois possibilita a construção de um técnico conhecedor. Outra peça fundamental é o Juramento de Hipócrates, pois permite saber o que é ser médico, aquilo que deve sempre reger a profissão. Por fim, é fundamental a humildade, ser-se médico sem se esquecer que se é também uma pessoa e, por isso, alguém suscetível às mesmas fragilidades e aos mesmos erros que os doentes.

Ser médico é, no fundo, ser pessoa sabendo o que é ser médico.

Mafalda Jorge, 3º ano