Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Beatriz Aranha Martins Final

Os médicos detêm algum poder sobre a vida das outras pessoas. Mesmo os atos médicos mais simples, como prescrever fármacos, podem influenciar significativamente quem os toma. Assim, é uma profissão que exige um grande grau de responsabilidade e que deve estar sujeita a regulação e princípios éticos inabaláveis. Deve ser o exercício profissional mais isento de ambições pessoais e monetárias que existe. No entanto, sabemos que isto nem sempre acontece e as consequências afetam outras pessoas como nós.

Os EUA enfrentam hoje uma Epidemia improvável. Uma epidemia que depende apenas das circunstâncias socioeconómicas atuais, da intervenção da saúde e que começa com uma prescrição médica sentenciosa de um vício. O seu crescimento fez aumentar três vezes, entre 2000 a 2015, o número de mortos por esta causa. Até 1997, nos EUA, os analgésicos opióides estavam reservados para doenças terminais que cursam com dores fortes ou para a dor do pós-operatório. No entanto, em 1995 foi desenvolvido um medicamento, a oxicodona (OxyContin, nome comercial), que foi apresentado como o fármaco mais promissor da História para o tratamento da dor crónica. Prometia acabar com a dor do pescoço e das costas, da artrite e da fibromialgia.

Enquanto que na Europa se manteve a restrição da prescrição destes fármacos pelo seu perigo aditivo, o mesmo não aconteceu nos EUA. Neste país, a FDA aprovou o medicamento logo em 1995. Em 1997, a “American Society of Pain Medicine” e a “American Pain Society” passaram a incluir nas suas guidelines para o tratamento da dor o uso de analgésicos opióides, como a oxicodona e a hidrocodona. De facto, cada vez mais nas sociedades desenvolvidas o grande desafio da Medicina são as doenças crónicas, que cursam muitas vezes com dor crónica. Isso exige a procura de soluções que possam ser eficazes, mas que ao mesmo tempo tenham uma utilização segura, comprovada com estudos adequados.

Nos EUA, em contrapartida, o que se verificou foi a aprovação destes fármacos sem todos os estudos necessários. Em parte, isto ficou a dever-se à existência de grandes interesses financeiros por parte das farmacêuticas que desenvolveram estes analgésicos, entre as quais a Purdue Pharma, produtora de OxyContin. Farmacêuticas como esta, que ironicamente financiam Faculdades de Medicina no país, convidaram médicos para conferências e congressos na Florida e outros locais turísticos. Nestes, foram abordadas as inúmeras qualidades da utilização de opióides no tratamento da dor, desde a mais simples à mais complexa, como se de uma revolução médica se tratasse.

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A partir deste momento, aumentou muito a prescrição destes analgésicos e os EUA tornaram-se consumidores de um terço dos analgésicos opióides produzidos no mundo. Só em 2016, no Ohio, 1 em cada 5 pessoas teve uma prescrição destes fármacos. Com o passar do tempo, as overdoses associadas ao consumo de opióides prescritos ultrapassaram o número de overdoses de heroína ou qualquer outro tipo destas substâncias. No entanto, já não são apenas os adultos a terem dependência. Talvez mais grave ainda seja o crescente aumento do número de recém-nascidos já com a dependência adquirida da mãe e que, algumas horas após nascerem, conhecem os efeitos do Síndrome de Abstinência.

Outro dos problemas foi o surgimento de “Pain Clinics”, cujo o único objetivo passou a ser a prescrição de analgésicos opióides, ganhando com isso muito dinheiro. Os médicos destas clínicas tornaram-se traficantes em batas brancas e muitos foram mesmo acusados e condenados a vários anos de prisão. Quando para alguns doentes terminava a possibilidade de obterem fármacos legais prescritos, isso fazia com que passassem a consumir heroína obtida ilegalmente, algo verificado pela “American Society of Addiction Medicine”, que refere que 4 em cada 5 das pessoas que consomem heroína atualmente consumiram anteriormente analgésicos opióides prescritos pelo médico. A intervenção médica passou a ser, em muitos casos, uma importante causa de morte e de degradação das condições de vida.

Apesar de grande parte da responsabilidade recair sobre os ombros dos médicos e das farmacêuticas, são inegáveis outros fatores que dependem do contexto socioeconómico atual. Verifica-se que, mesmo tendo aumentado em todo o país, é principalmente em Estados interiores ou rurais que acontece o maior número de overdoses. Destacam-se West Virginia, Alabama, Ohio, New Hampshire e Novo México, por exemplo. Estes locais foram muito afetados pela Revolução Tecnológica, que fez com que o desemprego aumentasse muito. O surgimento de grandes empresas com o domínio da economia do país, como a Google ou a Apple, ou as empresas de Silicon Valley, fez com que muita da oferta de trabalhos qualificados se deslocasse para as duas zonas costeiras do país, deixando um interior rural, isolado e pobre, propício ao aumento do consumo de substâncias aditivas.

Desde 1999 já morreram muitas centenas de milhares de pessoas com overdoses de opióides e não se sabe ao certo como estancar esta epidemia, quando, no mercado negro, começam a surgir substâncias cada vez mais fortes e aditivas, como o fentanil, 100 vezes mais potente que a heroína. Certamente muitos problemas estruturais terão de ser resolvidos, mas acima e primeiro que tudo, devem ser os médicos a controlar uma epidemia que depende, em último caso, da sua atuação, que se deve tornar mais isenta de interesses secundários.

Pela primeira vez, a 27 de Outubro deste ano, foi declarado nos EUA o Estado de Emergência de Saúde Pública quanto à epidemia, o que implica o aumento do investimento público na resolução da mesma. Assim, resiste alguma esperança na possibilidade de o mais rápido possível conseguir tornar este problema num caso passado de insucesso da intervenção médica, com o qual se possa aprender para o futuro.

João Fernandes Pedro, 3º ano
Ilustração por: Beatriz Aranha Martins, 3º ano