Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
JLA

Na passada quarta-feira reunimo-nos na Última Lição do Professor Daniel Sampaio e passado apenas um dia unimo-nos para homenagear o Professor João Lobo Antunes, que morre a 27 de outubro com apenas 72 anos, vítima de cancro.

Na certeza que passará com a devida distinção no teste do tempo, fica a memória de um humanista e de um cientista que retratou o ato cirúrgico como um verdadeiro ato sagrado. Começando com a purificação – desinfeção -, vestia de seguida os paramentos adequados e no silêncio que prezava, os rituais sagrados podiam cumprir-se.

João Lobo Antunes, desde os joviais dias do Liceu Camões que se afigurava como um aluno brilhante, paulatinamente infetado pelo vírus da curiosidade. Ainda nesses longínquos tempos lutou pelo direito de poder pensar em liberdade, mostrando o seu espírito irreverente e corajoso. Nos livros variou no estilo e na substância, em “Ouvir com Outros Olhos” podemos ler «A justiça é não só o pilar fundamental de qualquer democracia, mas é também a força que dá suficiente robustez moral a um povo, e lhe permite enfrentar com mais convicção e energia as crises com que a modernidade irá, repetidamente, desafiá-lo agora, amanhã, e daqui a 25 anos.».

 Nascido e criado em ambiente médico, é em 1966 que ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, terminando a licenciatura com resultados notáveis. No início da década de setenta desloca-se para Nova Iorque, onde realiza o doutoramento no Columbia Presbyterian Medical Center. Também aqui enriquece a sua vivência universitária, que seria já nos anos 80 posta em prática na casa a que regressa, no Hospital de Santa Maria, onde se torna Professor Universitário e Diretor de Serviço de Neurocirurgia, função que desempenha por 30 longos anos.

«L’art c’est moi, la science c’est nous.» disse Claude Bernard, um médico francês do século XIX, que já na altura nos alertava para o facto de não existir espaço para o cientista que vive isolado entre as suas pipetas e tubos de ensaio. Hoje mais do que nunca, a ciência faz-se em grandes e estimulantes equipas. Lobo Antunes vivera com grande fervor a evolução tecno-científica das últimas décadas, sem nunca descurar a arte do saber ouvir os doentes, que nos momentos de maior dor tanto relatam como omitem.

Numa antiga conversa com a RTP1, escolhe como o livro da sua vida o eterno e romântico clássico português “Os Maias”, de Eça de Queirós, onde os defeitos do povo são quase retratados como qualidades. Foi também através dos livros que leu e escreveu que cresceu como médico, aproximando-se da realidade de cada um dos seus doentes, independentemente das suas origens. Este olhar para a individualidade do doente, entendendo-o tal como ele existe e prestando-lhe os cuidados mais adequados são algumas das linhas que regeram a sua atuação, e como bom mestre faz, transmite-as aos seus discípulos.

Em 1996 foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa no seguimento dos seus inexoráveis contributos para a sociedade científica e civil portuguesa e desde 2015 que presidia a Comissão de Ética para as Ciências da Vida. Durante a sua prática clínica fez parte de múltiplas sociedades científicas e publicou vastas dezenas de artigos, sem nunca ousar colocar os seus doentes em planos secundários. Soma a todas estas vitórias, ter sido Conselheiro de Estado e Presidente do Instituto de Medicina Molecular no período de 2002 a 2014, projeto que fecundou em parceria com a Faculdade de Medicina de Lisboa e Hospital de Santa Maria.

No adeus ao hospital e às funções académicas apresentou-se com a mesma  elegância que sempre lhe reconhecemos, mantendo a presença solene até aos últimos dos seus dias.

Será recordado pelos alunos, colegas e amigos como um vulto ímpar da cultura portuguesa que nunca cedeu às pressões egoístas da ciência, possuindo o engenho de permanecer sempre na vanguarda médica. E é este perfeito equilíbrio que me permite olhar para a medicina como uma verdadeira arte, não apenas no sentido estético, mas também no sentido do ofício.

Sereno e apaixonado pela profissão, via no cérebro um mistério fomentador de alento para mais investigação. Dedicou-se ao órgão no qual os pensamentos, as emoções, as memórias e a consciência conversam em absoluto silêncio. Com clareza e sem receios escrutinou os mais esdrúxulos dos temas das neurociências, sendo o primeiro neurocirurgião no mundo a implantar um olho eletrónico num invisual. É tido como uma figura imperiosa da Medicina Portuguesa com uma obra tão extensa, que medida à escala terrena, daria para preencher longos anos de leitura.

Cunhou a vida dos que salvou e dos que ensinou e, por isso, estaremos eternamente agradecidos. Descanse Professor.

Sérgio Bronze, 4º ano