Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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Eram aproximadamente dez da noite quando saímos do hotel. Queríamos aproveitar as nossas últimas horas na Turquia e então o pequeno grupo de turistas portugueses aventurou-se sem o guia pela noite de Verão de Izmir. Para chegar à avenida principal que nos levaria ao centro tínhamos de passar por aquela esquina. Já a tínhamos visto do autocarro, há umas horas atrás, mas o número de pessoas na zona não parecia ter diminuído. A maioria era do sexo masculino; entre eles, sentadas na rua, estavam várias mulheres. Uma delas mais isolada chamou-nos à atenção: tinha um bebé aninhado nos braços. Todos transportavam mochilas, algumas próprias para campismo, outras daquelas simples de levar os livros para a escola, mas todas estupidamente pequenas para quem saíra de casa sem perspectivas de voltar. Não sei explicar o porquê deste facto me chocar tanto naquele momento. “Toda a vida deles cabe ali dentro” pensei.

Lembro-me que a minha mãe me deu um empurrão e me disse para caminhar depressa, enquanto agarrava firmemente na carteira. Não gostei da atitude. “Mãe, estas pessoas não têm nada, de que temos de ter medo?”. “No meio das pessoas boas também vêm as más.” Quando regressámos ainda lá estavam. Sentiam-se, felizmente, uns 30ºC na noite de 27 de Agosto de 2015 em Izmir, na Turquia. Izmir é uma cidade litoral banhada pelo mar Egeu. Do outro lado está a Grécia. Uma centena aguardava ali forma de atravessar as águas à procura da Europa. Esta não foi a primeira vez que contactei com refugiados sírios. A estreia aconteceu há dois anos, no Verão de 2013, na Malásia. No mesmo prédio do nosso hotel em Kuala Lumpur, um senhor tinha uma banca de roupas e acessórios. Acabei por namorar um dos vestidos que lá estava. Era lindíssimo e eu não vira nada assim no Ocidente. O homem era simpático e perguntou-nos de onde éramos. Confessou-me que as malaias eram demasiado pequenas para os seus vestidos, que lhes ficavam a arrastar pelo chão. As sírias são mais parecidas com as europeias, comigo, e que por isso o vestido me ficava muito bem. Viera para a Malásia por causa da guerra e eu por causa da praia. Ele encontrara vida, eu um vestido. Eu trouxe o vestido para Portugal, para casa. E ele, algum dia voltará a casa?

Foi no Verão de 2015 que fiz o circuito “Turquia Maravilhosa” que terminou em Izmir. Foi também no Verão de 2015 que a Europa assistiu ao maior fluxo de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Em Setembro de 2015, a OIM (Organização Internacional de Migração) afirmou que cerca de 350.000 migrantes tinham cruzado as fronteiras da União Europeia, sendo maioria oriunda da Síria. Este país, para além de estar a travar uma Guerra Civil desde 2011, sem fim no horizonte, sofre, assim como outras nações do Médio Oriente, com a expansão do grupo terrorista autoproclamado Estado Islâmico. Estima-se que, devido a este conflito, de uma população de aproximadamente 18 milhões de pessoas, mais de 50% está actualmente deslocada internamente. De acordo com os dados da ONU, cerca de 250 000 pessoas foram mortas e 13,5 milhões encontram-se em necessidade de assistência humanitária urgente dentro da Síria. Uma em cada duas pessoas que atravessaram o mar Mediterrâneo em 2015 eram sírios, cerca de 500 mil. No entanto, mais de 4,5 milhões de refugiados estão em apenas cinco países: Turquia, Líbano, Jordânia, Iraque e Egipto, sendo que a Turquia acolhe 2,5 milhões, mais do que qualquer outro país no mundo inteiro, tendo até agora servido simultaneamente como porta de entrada e travão à passagem de refugiados para a Europa.

Muito se diz e se opina sobre esta grave crise humanitária que estamos a viver. Se por um lado seria inconsciente ignorar o seu impacto social, por outro é extremamente importante avaliar a realidade. Um aspecto essencial a ter em conta é a diferença entre os conceitos de refugiado e de imigrante. Enquanto que os imigrantes deixam as suas casas em busca de trabalho e uma melhor qualidade de vida, os refugiados viajam para fugir de perseguições, tortura e guerra, não tendo outra alternativa. Ao abrigo da lei internacional, têm o direito de ser recebidas e protegidas. No total foram oferecidas apenas 162 151 vagas de reinstalação a nível global desde o início da crise na Síria. A Alemanha comprometeu-se a receber 39 987 refugiados sírios através do seu programa nacional humanitário de acolhimento e de patrocínios individuais – o que equivale a 54% por cento do que foi feito em toda a UE. Portugal é o segundo país que mais acolhe, mostrando-se disponível para receber até um número próximo de 10 000, contudo, até agora recebeu somente 379. Todavia, os países do Golfo Pérsico, incluindo o Qatar, os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Kuwait e o Bahrein não disponibilizaram nem uma só vaga de reinstalação para os refugiados sírios. Outros países de elevados rendimentos, como a Rússia, o Japão, Singapura e Coreia do Sul, também não ofereceram nenhuma vaga de reinstalação, portanto a esmagadora maioria dos refugiados permanece em países incapazes de oferecer as condições adequadas, estando estas pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza.

Os mitos sobre a crise dos refugiados crescem como ervas daninhas na sociedade Europeia. Argumenta-se que estamos perante o emergir da supremacia islâmica, o desvanecer da nossa cultura face à muçulmana, o início da era árabe. O sugerir destas premissas da voz europeia demonstra a incompreensão de que estas pessoas estão precisamente a fugir a quem as deseja concretizar. Também se afirma que não precisam da nossa ajuda, porque trazem telemóveis, por exemplo, o que mais uma vez remete para a definição de refugiado. Confunde-se a imagem do mais profundo sofrimento que temos do rosto destes seres humanos com submundo. Embora estejam na verdade a fugir do inferno, muitos são médicos, engenheiros e arquitetos, pessoas com escolaridade e formação profissional, que possuíam as suas casas, carros e vidas e para as quais dariam tudo para poderem voltar, daí ser tão relevante recebê-las como têm direito. Não nego que “trigo e joio” poderão vir juntos, muito menos afirmo que temos “celeiros” capazes de dar a resposta digna que esta missão exige. Sei que os desafios trazidos pela crise de refugiados são transversais a todas as bases da paz social, desde a saúde, habitação, trabalho e educação, até à segurança, criminalidade, discriminação e religião. Idealmente, dever-se-á encontrar um equilíbrio entre o respeito pela liberdade individual e a inclusão social, algo que certamente não é fácil considerando as marcadas diversidades culturais existentes e a própria História. Ainda assim, não devemos esquecer que de acordo com a lei, temos o dever de procurar esta harmonia.

Atendendo ao panorama global que actualmente se vive, com a política e numerosos governos quer a fecharem os olhos quer a virarem as costas, exibindo uma falta de solidariedade cooperativa internacional que culmina num efeito dominó de negação, medo e isolamento, cada vez mais se torna prioritário que seja cada cidadão, na sua aparente impotência intrínseca, a assumir um papel de destaque neste cenário. Cabe-nos a nós fazer o que estiver ao nosso alcance, tudo o que for preciso para que, de alguma forma, possamos fazer por outros o que certamente agradeceríamos que fizessem por nós. Não quero ser a turista horrorizada com medo de que lhe roubem o iPhone que está dentro da mala. Não quero ser a mulher que se sente desconfortável na casa de banho pública porque a pessoa ao lado acabou de pentear o cabelo para lhe pôr um hijab por cima. Como cidadã europeia, católica de olhos azuis, não quero um dia ficar para a História como aquela que ignorou a morte de crianças nas praias paradisíacas que quis visitar. Quero antes acreditar que a alopatia é a terapêutica que o mundo agora precisa. Que como a espécie que mais longe foi na hierarquia da evolução, conseguimos refrear os nossos instintos mais primitivos de luta e fuga e partilhar o alimento e o abrigo que temos com o outro. Que entendamos que adoramos, valorizamos e desejamos exactamente o mesmo, que embora as palavras sejam diferentes, o significado é igual. Infelizmente, por vezes parece que estou sozinha no meu sonho. Os homenzinhos bem-vestidos no ecrã da minha televisão não me ouvem a gritar e por mais relatórios, crónicas e conferências que se façam, nada muda para melhor. Recentemente, fizeram-me entender que não podemos continuar à espera de D. Sebastião. Está na hora de assumir a nossa responsabilidade enquanto protectores de algo tão primário como a nossa própria humanidade.

Não se sabe quanto tempo mais esta crise humanitária durará. Não se sabe quantas pessoas ainda precisarão da nossa mão ou quantas mais morrerão à sua espera. Também não se sabe se algum dia encontraremos a solução perfeita e ideal para lidar com esta catástrofe, sabemos apenas que nos afecta directa ou indirectamente a todos. A pergunta que temos de fazer é só uma: que tipo de filosofia queremos construir para as gerações futuras? Qual o título de romance que queremos dar à nossa História: Orgulho e Preconceito ou Sensibilidade e Bom Senso?

Eu sei o qual quero. Assim sendo, espero que tenhamos coragem para abrir as nossas portas e, sobretudo, as nossas mentes. Pois se há algo que já foi antes provado, é que dos momentos de maior adversidade e mudança nasce a esperança e o mundo avança.

Ana Sofia Mota, 3º ano