Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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Este mês surgiu uma notícia que causou uma enorme contestação na comunidade literária e artística e que originou um debate aceso pelo mundo fora: a atribuição do prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan. O facto de o próprio ainda não se ter pronunciado sobre isso tem conduzido a uma enorme especulação sobre a reação do músico e contribuído para fomentar ainda mais a discussão sobre este tema tão controverso. A proporção que esta notícia tomou comprova, por si mesma, a dimensão da lenda que Bob Dylan é. Não há dúvidas de que é um dos músicos mais influentes de todos os tempos. Será que também é um dos maiores escritores de todos os tempos?

Bob Dylan nasceu como Robert Allen Zimmerman a 24 de maio de 1941, em Duluth, Minnesota. Enquanto se encontrava na Universidade do Minnesota, começou a tocar canções country e folk nos cafés locais com o pseudónimo de “Bob Dillon” (inspirado na personagem principal de uma popular série televisiva de Western denominada Gunsmoke). Em 1961, Dylan assinou o seu primeiro contrato discográfico, emergindo como uma das vozes mais originais e influentes da história da música popular americana.

Ao ouvirmos as suas músicas, deparamo-nos com histórias contadas num tom quente e próximo, através de uma voz única que imortaliza como ninguém as palavras que todo um povo deixou por dizer. Deparamo-nos com versos que nos trazem personagens que caminham na rua do passado, e com os olhos de tantos outros que viram e nunca revelaram. Deparamo-nos com uma poesia cantada que não consegue deixar ninguém indiferente. E é aí que reside a sua magia: na genialidade com que uma nota acompanha uma sílaba, que um acorde acompanha uma palavra e que uma melodia acompanha uma história.

Penso que é importante que não categorizemos demasiado a arte. Ao criarmos divisões e muros neste universo, estamos a retirar um pouco de liberdade à expressão que ela nos dá. Dylan cria uma forma de expressão única, uma nova forma de fazer as palavras chegarem a quem o escuta.

Em cada fase da sua vida, Bob Dylan foi capaz de internalizar a enorme variedade de influências que recebera e de transformá-las, com uma grande sensibilidade e ousadia, num som unicamente seu. Foi capaz de criar, tal como a academia descreveu,“new poetic expressions within the great American song tradition”. O resultado de tudo isto? Um conjunto de criações artísticas invejável. Uma discografia absolutamente arrebatadora.

Começando por um dos primeiros e mais irresistíveis álbuns de Bob Dylan, “The Freewheelin’ Bob Dylan”, uma guitarra e uma harmónica são tudo o que basta para nos fazer chegar imagens de um povo em guerra, atormentado pela morte dos “Masters of War”. As suas palavras nesta música são de condenação aos responsáveis pelas atrocidades da guerra e do sangue que ela derrama, exprimindo o protesto e a frustração que a nação americana sentia. A “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” é uma reflexão sobre tudo o que acontece em seu redor (“And I’ll tell and speak it and think it and breathe it, and reflect from the mountain so all souls can see it”), um grito de desespero, mas ao mesmo tempo um aviso para as gerações futuras, uma mensagem de esperança e um prenúncio de que algo se avizinha, de que uma “hard rain” se aproxima. É como se fosse o próprio Dylan a cantar-nos a sua missão.

Temos ainda o famoso “Highway 61 revisited”, um álbum que já inclui outros instrumentos, não tão íntimo, não tão focado nas mensagens políticas, mas igualmente genuíno e poderoso. Traz consigo o grande êxito de Bob Dylan e a icónica letra: “How does it feel to be without a home, like a complete unknown, like a rolling stone”. Outros álbuns poderiam ser mencionados, como o magnífico “Blonde on Blonde” ou mesmo o tocante “Blood on the tracks”, que comprovam, mais uma vez, a capacidade que Dylan tem de expressar os pensamentos mais inacessíveis e de materializar as emoções mais inexplicáveis.

A Literatura não é, no fundo, uma forma de expressão da sociedade? Uma recriação? Uma nova perspetiva da realidade? A Música é uma forma de expressão, mas será que engloba a recriação e a conceção de novas perspetivas? Não necessariamente. Mas poderá englobar quando é criada por alguns  que não se limitam a exprimir-se através de um conjunto de notas e palavras. Dylan recria e expõe o ser humano com a mesma verdade com que para ele olha, um acto de genialidade não alcançado por muitos.

Não há que negar, então. Este Nobel é uma concretização da complementaridade das várias artes, o reconhecimento do talento de um artista que soube unir harmoniosamente duas dessas artes. Sempre acreditei que a música e a literatura fossem indissociáveis. Aqui está a prova disso.

Há Literatura na Música.

E há um Bob Dylan a prová-lo.

E agora, um Nobel.

                                                                                                                                                            Mafalda Jorge, 2º ano