Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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Quem passa por eles no Rossio, na Praça do Comércio, no miradouro da Graça, no Jardim da Estrela ou em qualquer ponto histórico de Lisboa (falo desta cidade, pois é nela que vivo), dificilmente estranha a sua presença, pois são habitués. Vemo-los altos, louros, felizes – numa palavra, turistas.
Pelas contas do Turismo de Portugal, só a área metropolitana de Lisboa recebeu, em 2015, 5,2 milhões de hóspedes, num total de 12,2 milhões de dormidas e perfazendo uma receita de 772 milhões de euros (valor 13,9% superior em relação a 2014). Acresce que 60% desta receita resulta de gastos realizados por cidadãos ingleses, franceses, espanhóis e alemães – cujas estadias não ultrapassam, em média, as 2 noites.
Ora, a esta aritmética corresponde a multidão de gente de que nos desviamos na rua Augusta e a sua admirável diversidade – tanto se passeia em carrinhos de bebé ergonómicos como apoiada em bengalas. Não obstante, e segundo dados da Associação de Turismo de Lisboa, o turista “típico” tem entre 35 e 54 anos e formação superior (Diário de Notícias, 04.06.2016).
Mas o que os levará a eleger a capital portuguesa? Em Lisboa, a qualidade (nestas coisas, a quantidade pouco importa) museológica é duvidosa e a imponência dos edifícios também não é singular. Dá-se o caso destes indivíduos, que nasceram sob o auspício de economias fortes e estados sociais garantidos, poderem, e quererem, suspender o seu “modo funcionário de viver” em férias de luz, calor, mar, gastronomia típica e muito relax – ver (e não apenas olhar, o que demora tempo) quadros em museus e frescos em capelas não é para massas.

Pesa-lhes também, na tomada de decisão, a situação calamitosa que assola destinos turísticos típicos, como a Turquia ou a Tunísia, assim como a ameaça premente de atentados terroristas. Uma das concorrentes imediatas de Lisboa é Istambul – muitos, entre os quais Calouste Gulbenkian, um natural da antiga Constantinopla, encontraram vários pontos de comparação entre as duas cidades. Porém, o governo de Erdogan tem as estatísticas do turismo arrumadas na gaveta da liberdade de expressão, pelo que a análise comparativa é impossível.
Há, ainda, a mil vezes repetida hospitalidade nacional, uma afamada arte de bem receber, porventura um benévolo fruto do hábito secular de olhar os poderosos (ou aqueles que julgamos sê-lo) docilmente.
Se queremos comparações, resta-nos olhar para os dados relativos a 2014 do Eurostat, de onde se observa Portugal na nona posição relativamente ao número de dormidas por cidadãos não residentes no país, à frente da Holanda, mas ultrapassado pela vizinha Espanha (que é campeã), Itália, França, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Grécia e Croácia.
É incontestável – até porque os telejornais nos massacram com essa informação a cada instante – o portentoso investimento nacional em hotelaria nos anos recentes (entre 2010 e 2014 abriram as portas em solo pátrio 37 hotéis). Com a riqueza gerada pelos hotéis de 4 e 5 estrelas a rondar os 1500 milhões de euros, no ano de 2015 (dados do INE), Lisboa encontra-se em oitavo lugar (e o Porto em sétimo) no ranking da reputação hoteleira das cidades europeias em 2015, estabelecido pelos utilizadores do site Trivago.

Porém, o toque da modernidade tem sido o da criação de alojamentos locais – hostels, apartamentos ou quartos para arrendamento de curta duração. Em Portugal, estão registados aproximadamente 18 mil negócios deste foro, com uma receita gerada de 129 milhões de euros (INE) e um número de camas que já ultrapassa a metade da capacidade hoteleira (Expresso, 29.08.2015). No portal da Airbnb (a maior plataforma mundial de reservas deste tipo de alojamento turístico), estão inscritos 26700 alojamentos portugueses, dos quais 10.200 situados em Lisboa (o que representa um crescimento anual de 65%, largamente superior à média europeia).
São negócios de jovens adultos, muitos deles licenciados, que, esbarrando no desemprego e na instabilidade laboral, investem – a crédito, claro – num negócio próprio, que ambicionam moderno, versátil e, sobretudo, rentável. A gosto ou a contragosto, fizeram-se empreendedores. Contrariamente aos hotéis, que primam por um perímetro de segurança de onde se enxotam os não-clientes, estes alojamentos inserem-se preferencialmente dentro dos bairros típicos alfacinhas, por forma a proporcionar ao cliente uma experiência “autêntica”. Para tal, encetou-se a recuperação de prédios (muitos deles históricos) devolutos – o que só pode ser apreciado. Não sendo estes em número suficiente, o aliciamento imobiliário tem levado os proprietários a mover múltiplas acções de despejo – maioritariamente a inquilinos velhos, a pagar poucos euros por um tecto que, apesar de estucado, há muito cai de podre.
Em jargão sociológico, este processo de valorização imobiliária da urbe através do afastamento dos habitantes locais de menores rendimentos dá pelo nome de gentrificação. Na práctica, não são só os velhos ou os miseráveis a serem empurrados para os arrabaldes, onde se construíram bairros decrépitos, sujos, feios e, com sorte, empolados de criminalidade. Hoje, é quase impossível a alguém da classe média (a tal que está a mirrar), em condições regulares e honestas, arrendar um apartamento decente num dos bairros típicos, sem ficar a passar fome o resto do mês.
Aqueles que a crítica apelida de “neo-liberais” argumentam que a Lisboa popular estava há décadas a desertificar-se (pelo menos à noite, após o fecho de lojas e bares) e que este negócio fluorescente é um bem maior numa economia estagnada – em termos de percentagem das receitas do turismo no PIB do país, esta representa em Portugal 6%, um valor nada despiciendo face aos 1,1% na Alemanha, 4,7% na Espanha, 2,1% na Itália ou 1,6% no Reino Unido (Eurostat, 2014).
Em Lisboa, a resposta “neocon” chegou através de uma taxa turística que renderá à autarquia 11 milhões de euros por ano. Ameaça-se também com a criação de cotas obrigatórias de moradores, uma medida que, de tão dirigista, soa a “verbo-de-encher”.


Claro que depois, na cozinha (que é como quem diz em centros comerciais claustrofóbicos e periféricos), o Zé Povinho não resiste ao gesto de indignação – malditos turistas, que sobrelotam as esplanadas, açoitam os incautos com os seus paus de selfie e congestionam o trânsito em passeios de tuk tuks – mas voz de português não chega ao alojamento turístico…
A propósito, estes meios de transporte inesperados, que circulam às centenas na capital, guiados – surprise! – por jovens desempregados, numa parafernália de trânsito e ruído, encarnam bem o conceito de pegada turística, referente à pressão social, ambiental e económica exercida pelo turismo sobre as cidades.
Num país, o nosso, em que a maioria das gentes não está, nem cultural nem conjecturalmente, afeita a viagens, o convívio com cabeças que pensam e vivem de forma diferente só pode ser vantajoso. Quando se vão, os forasteiros deixam dinheiro mas também qualquer coisa da sua cultura. Mas a preciosa moeda do multiculturalismo tem outra face: se os turistas que galgam as vielas de Alfama encontram apenas outros turistas, a par de uma meia-dúzia de “fadistas castiços” – felizmente mais uma caricatura idiota do que uma amostra verossímil da nossa identidade – vão acabar por desprezar os portugueses e reduzir Lisboa a uma estância de férias luminosa mas olvidável.

Rui Coelho, 5º ano