Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Sala Da Direção AEFML

Para que não restem dúvidas, a AEFML cresceu.

Em 2010 não existia a Corrida Saúde + Solidária, o Sarau Cultural teria graciosamente um quarto dos artistas, o número de lugares de estudo não chegaria a metade dos que hoje existem.

Como se explica o sucesso da AEFML? Como é possível uma organização estudantil conseguir agir em áreas tão diferentes como a cultura, a ciência, o desporto, a pedagogia, a saúde pública e em todas elas acrescentar algo mais, todos os anos? Como é que um organismo, com tanto poder e que movimenta tanto dinheiro não tem níveis superiores de corrupção? A resposta pode residir numa condição essencial e três fatores interdependentes: Darwinismo, limitação de poder e contexto profissional.

Começando pela condição essencial: nós, os estudantes da casa! Todos os que aqui estamos conseguimo-lo através de um processo de entrada difícil, árduo, exigente, mas acima de tudo, meritocrático, o que confere, à partida, qualidade a todos os colaboradores e membros da Direção da AEFML. Por outro lado, o facto de sermos uma Faculdade com um curso único cria um ambiente propício à existência de um espírito de união e identidade única, o que facilita não só a entrega de todos os alunos à AEFML, mas também que a AEFML saiba ir ao encontro dos interesses dos alunos. Imagine-se a possível entropia criada pela eventual necessidade de representar 20 cursos, com ambições e necessidades diferentes!

A AEFML reinventa-se e evolui todos os anos. Isto é só possível através da sua dinâmica Darwiniana, que respeita rigorosamente a teoria evolucionista das espécies. As experiências evolutivas do passado, não aberrantes e com bons resultados mantêm-se nos mandatos seguintes, sendo elas os projetos e elementos da equipa. É fundamental que haja uma manutenção parcial da Direção da AEFML, para que o saber de trabalho feito seja transmitido, para que se mantenha o bom património genético. À semelhança de um organismo vivo, cada mandato é como um ser acabado de nascer, nele são feitas e testadas um conjunto de alterações à AEFML. Novas caras, novos projetos e até novas ideias para projetos já existentes. Nem todas funcionarão e portanto não se perpetuarão em mandatos seguintes. Todavia, à semelhança das espécies, é este processo que permite a evolução da AEFML.

É este processo que permite que haja Corrida Saúde + Solidária. É este processo que justifica que não se realizem Olimpíadas de Inverno nem nenhuma Direção da AEFML tente de novo realizá-las. Daqui podemos retirar uma ilação: independentemente das pessoas que estão na AEFML, as atividades e os projetos continuarão a realizar-se, portanto, nada nem ninguém é insubstituível, nenhum indivíduo é, nem nunca será, essencial ou indispensável à AEFML.

Para um ser vivo é preferível que as células mais velhas entrem em apoptose do que sofrerem dege- neração maligna. De forma paralela, a progressão natural do curso impede a manutenção dos dirigentes associativos na AEFML indefinidamente. Chegamos ao segundo fator de sucesso da AEFML: a limitação de poder. A manutenção das mesmas pessoas em cargos de poder não é benéfica para nenhuma estrutura, por dois motivos. Em primeiro lugar, o poder é confortável e leva à inércia, à estagnação. Para que a evolução se mantenha pujante é fundamental, é necessário, é mandatório que a liderança mude, que traga consigo novas ideias, nova energia. Olhemos para os exemplos das duas maiores potências mundiais, cujas lideranças não se perpetuam: a) os EUA, que em mais de 200 anos de história, apenas um presidente foi eleito em mais de dois mandatos – Franklin D. Roosevelt – e logo na presidência seguinte foi aprovada a XXII Emenda à Constituição dos EUA, limitando os próximos presidentes a dois mandatos; b) a própria China, embora possamos considerá-la uma ditadura, tem evoluído para um modelo de democracia intrapartidária, com elevada renovação de lugares até no Comité Central. Portanto qualquer tentativa de ligação de antigos membros ou alunos à AEFML após a graduação deve ser vista com algum cuidado e ressalva, sempre com as intenções e contrapartidas, para ambas as partes, bem estabelecidas e de forma transparente.

Em segundo lugar, o poder corrompe e a permanência em cargos de poder propicia a utilização indevida de meios comuns. Definamos corrupção e analisemos a segunda questão inicial. Segundo a ONG Transparency Global: a corrupção consiste no abuso do poder confiado a alguém numa posição de autoridade para proveito próprio em detrimento dos que dependem da sua integridade. A AEFML, e os estudantes, tem um enorme poder político dentro da faculdade, para além de que movimenta imenso dinheiro, portanto: como se justifica que não se observem atos de corrupção? Obviamente que parte da resposta reside no edifício ético e moral dos estudantes, contudo não é suficiente.

Chegamos ao terceiro fator de sucesso da AEFML: o contexto profissional. O futuro profissional dos dirigentes associativos depende quase exclusivamente de uma prova cega e meritocrática, a PNS, e portanto é muito difícil que através de atos de corrupção consigam ver o seu futuro beneficiado. Há duas situações que devem ser salientadas, por fugirem ao crivo da PNS: dirigentes interessados em carreiras em Saúde Pública e em carreiras académicas. Os primeiros porque o seu sucesso profissional está muito ligado a nomeações políticas e possivelmente a jogos de poder. Os segundos, porque podem ser diretamente convidados para lugares de docência, dispensando concursos públicos. Estes dois grupos são muito mais propensos a cometerem atos de corrupção, através de trocas de favores e tráfico de influências. Assim, quanto mais poder tiverem os estudantes, e quanto mais importantes forem, por exemplo, as votações em que estão envolvidos, maior é o risco. Contudo não quero defender de forma alguma que os alunos não deveriam ter votos em decisões importantes, muito antes pelo contrário! Os votos estudantis serão, à partida, tendencialmente mais puros do que os dos restantes intervenientes: 1) o seu futuro profissional está dependente da formação que recebem na faculdade, e portanto votarão de acordo com o que será melhor para a sua academia; 2) como não pertencem a nenhum corpo profissional da faculdade, não votaram de acordo com interesses sectários, mas sim de acordo com o ponto 1). Outra situação que predispõe a atos corruptos, neste caso financeiros, são situações que requerem grandes investimentos. Em ambos os contextos, urge uma atenção redobrada por parte de todos os estudantes sobre as estruturas que os representam, sob pena de verem os seus interesses comuns prejudicados para o benefício de poucos.

É esta a fórmula do sucesso da AEFML: uma base estudantil sólida e única que garante a sua qualidade; um funcionamento por princípios evolutivos Darwinistas, que é responsável pela dinâmica e progresso; a existência de mecanismos de apoptose para limitação da manutenção de poder e um ambiente pouco aliciante à corrupção (com exceções). Qualquer alteração à conjuntura atual, como por exemplo a nova PNS e a média de curso corresponder a 20% da nota de entrada na especialidade, poderão levar à alteração do organismo AEFML como hoje o conhecemos.

Autor: Artur Nixon Martins, 6º ano