Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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Hoje vi um parto.
Reformulo.
Hoje vi um parto pela primeira vez.
Hoje vi um parto pela primeira vez e não foi lindo nem maravilhoso.
Hoje vi um parto pela primeira vez e fiquei com medo.

“Força! Faça força como se estivesse a fazer cocó!” São estas as palavras que as mulheres ouvem naquele que deve um dos momentos mais felizes e íntimos da sua vida. Mas é também um dos mais feios e crus.

Quando somos meninas oferecem-nos barbies e nenucos, treinam-nos para sermos mães ainda antes de sabermos escrever. Crescemos a brincar com nenucos e a sonhar em ter um real um dia. Brincamos aos pais e às mães. As que têm a sorte de ter irmãos mais novos divertem-se a fazer deles bonecos, a puxar cabelos e braços, a tentarem perceber como é que aquele pequeno nenuco se consegue mexer sozinho e fazer barulhos. Nestes momentos, acreditamos que aquele vai ser uma parte do nosso futuro. Nós, mulheres crescidas e bem-sucedidas como a Barbie, com um filho ao colo. Com um filho a quem possamos chamar nosso ao colo.

As meninas são desde cedo ensinadas a gostar de bebés, dos irmãos mais novos, dos primos mais pequenos. Parece que faz parte do crescimento gostar dos seres humanos mais pequenos e querer protegê-los do mundo. E na verdade é assim para a maioria das raparigas. São poucas as que não gostam de crianças, são muito poucas as que não desejam ter um filho.

Será na verdade um sonho nosso ou um sonho que nos é imposto? Pelos pais. Pelos amigos. Pela sociedade. É um crescimento condicionado. Aquelas que de nós pensam que é mais importante seguir a carreira e conhecer o mundo são vistas como estranhas. Como outsiders. Como não pertencendo. Como se aquela pequena, mas obrigatória, lição que o mundo se esforçou tanto por nos impor não tivesse ficado registada no nosso cérebro enquanto crescíamos. Somos manobradas como fantoches. E o mais estranho é que a maior parte de nós o aceita. E até gosta. E até chega realmente a sonhar com isso. Seguimos as migalhas deixadas pela sociedade como se a nossa capacidade de pensar estivesse adormecida. Ignoramos que existe outro caminho? Ou já percebemos que não vale a pena combater milhões de anos de história e uma mentalidade que insiste em ficar parada no tempo? Ou se calhar, apenas se calhar, existem algumas de nós que têm “desejo de ser mãe” impresso no seu código genético.

Talvez isso seja razão para outra discussão. Educam-nos a querermos ser mães e a aceitarmos esse caminho como certo. Mas não nos contam tudo. Escondem-nos que esse fado que escolheram para nós não transborda sorrisos e felicidade. Optam por nos omitirem a verdadeira dor e o sofrimento envolvidos. As nossas próprias mães fingem que o momento em que nós abandonámos o seu ventre foi como um conto de fadas. Mas não foi. Nunca é.

Hoje vi um parto pela primeira vez e a mãe estava a sofrer. Tinha os pés tão inchados que não cabiam nos chinelos. Tinha dores excruciantes cada vez que vinha uma contração. A cara dela era um misto de dor com desejo de querer que aquilo acabasse rápido. Pediu pela cesariana em desespero. Sim, desespero é a palavra que melhor descreve o semblante daquela mãe em trabalho de parto. Desespero em querer expulsar o tal sonho que afinal causa dor. Se estivéssemos a escrever uma história clinica, poderíamos descrever como dor rítmica com a contração uterina, em pontada, com intensidade 10/10, na zona do hipogastro e sem fatores de alívio. Como sintomas acompanhantes teríamos sensação de impotência e choro.

Mas depois o bebé nasceu. Margarida. Foi assim que os pais a chamaram. E, de repente, a mãe já não estava em desespero. A mãe não queria saber que faltava sair a placenta e que ia ter de levar pontos no pavimento pélvico. A mãe apenas estava interessada naquele pequeno ser com quem conviveu durante 41 semanas de gestação. Naquele ser que tinha causado tamanha dor. Mas essa parte já não interessava, era passado. A bebé estava cá fora, estava viva e a chorar, era tudo o que importava para a mãe. A ligação instantânea entre a mãe e a filha e o amor que de rompante invadiu a sala deixou-me completamente sem palavras. A mãe perdoou, talvez este seja um verbo demasiado forte, esqueceu todo o sofrimento que a sua Margarida lhe tinha causado. E aquela bela e indefesa recém-nascida prometeu à sua mãe que não a ia magoar da mesma forma outra vez. E comprometeram-se a amar-se desde aqui até à Lua e desde a Lua até aqui. E ambas descobriram que não voltariam a estar sozinhas nesta vida. Senti-me a mais naquela sala. Eram sentimentos que não me pertenciam. Talvez um dia sinta algo semelhante.

O parto não é bonito. Não é confortável. Não estamos mais bonitas como nos filmes. Não é o melhor momento da vida da mulher. É feio. É doloroso. É quase humilhante. É um momento de exposição máxima. Mas tudo isso não tem importância quando a mãe vê, ouve e toca no seu filho. Basta um segundo para que se torne o momento mais feliz da vida daquela mulher. Todo o sofrimento do trabalho de parto desaparece em prol do amor infinito por aquele novo ser humano. É difícil entender os sentimentos que nascem assim, de um segundo para o outro. Talvez só seja possível compreender depois de passar pelo mesmo. Talvez aquele amor, que foi crescendo lentamente durante umas longas e sofredoras 41 semanas e que atinge um pico de intensidade naquele momento, desculpe tudo. Talvez o amor faça a dor e o sofrimento valerem a pena. Talvez o amor compense tudo. Talvez o amor seja a razão mais pura para perdoar. Talvez o amor seja a única razão que nos impede de desistir.

O parto é feio. O parto é doloroso.

Mas o parto também é mágico. O parto também é amor. E talvez por isso se torne belo.

Sofia Prada, 5º ano
Ilustração: Catarina Paias Gouveia, 6º ano