Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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Caro leitor, se, como eu, nunca teve a alegria de aos 11 anos abrir a caixa de correio e encontrar uma carta manuscrita a tinta verde proveniente de Hogwarts e entregue por uma coruja, não desanime. Uma vez que Quem-Nós-Sabemos, durante o seu período de poder, destruiu todos os registos de feiticeiros filhos de Muggles nascidos entre 1985 e 1998, não haveria maneira de contactá-lo (a não ser que seja do 17-23). No entanto, não vá já a correr contra uma parede numa estação de comboio londrina. Vá antes a correr para a biblioteca e leia (ou releia) um dos livros da famosa série que dispensa apresentações. Como a autora disse: “Hogwarts estará lá sempre para lhe dar as boas-vindas a casa”.

Entre as ofertas desportivas de muitas universidades atuais encontra-se o Quidditch. Esta palavra, como todos os leitores “não Muggles” nos últimos 20 anos (ou não submetidos ao encantamento Obliviate) saberão, refere-se ao desporto praticado em cima de vassouras voadoras pelos feiticeiros do mundo criado por J.K. Rowling e demonstra o quão intrínseca a cultura deste está na nossa sociedade.

O ano de 2017 (mais especificamente o dia 26 de Junho) que agora termina marca o vigésimo aniversário do lançamento de Harry Potter e a Pedra Filosofal na Grã-Bretanha. Apesar de só ter chegado a Portugal em 1999, este primeiro livro da série de sete volumes foi o ponto de partida de um dos maiores best-sellers de sempre. Até hoje este primeiro capitulo vendeu 107 milhões de cópias no mundo inteiro e toda a série mais de 500 milhões, sendo que apenas a Bíblia pode rivalizar em volume de vendas.

Embora rejeitada por várias editoras até ser aceite pela Bloomsbury por sugestão da filha do editor chefe desta, que descreveu o livro como “a melhor coisa de sempre”, Rowling nunca desistiu do pequeno feiticeiro com a famosa cicatriz. A primeira edição constava de 500 cópias, das quais apenas 300 chegaram às livrarias. Além do inestimável valor literário, os felizes proprietários de umas destas impressões em capa dura contam com uma pequena fortuna na prateleira, uma vez que estas estão atualmente valorizadas em cerca de 30 mil euros (terão tomado Felix Felicis?)

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Felizmente para nós, mais edições se seguiram devido ao rápido sucesso da série. Após vencer vários prémios literários e ser nomeada para muitas outras distinções quer nas categorias juvenil como adulto, uma sondagem pelo New York Times em 2001, um ano após o lançamento de Harry Potter e o Cálice de Fogo, a 4ª remessa das aventuras do Rapaz Que Sobreviveu em Hogwarts, mostra que cerca de 60% das crianças entre os 6 e os 17 anos leram um livro da série e que 50% destes leram o primeiro volume. Análises semelhantes noutros países mostraram resultados tão sobreponíveis que se calculou que, devido à longa extensão dos dois primeiros livros que chegou a afastar algumas editoras por acharem que os jovens iriam torcer o nariz a livros tão longos, os leitores em idade escolar de Harry Potter leram o quadruplo de páginas do que seria esperado em textos escolares num ano completo.

Apesar de ter sido adaptado mais tarde ao grande ecrã e tornar-se um sucesso de bilheteira, um dos maiores feitos de Rowling foi chamar para a leitura uma geração inteira que cresceu na sociedade da gratificação imediata rodeada do mundo em expansão das tecnologias de entretenimento como a televisão, os videojogos e a internet. Ao fazer as suas personagens crescerem com os leitores, incrementando a complexidade dos temas abordados na história à medida que a série avançava, Rowling conseguiu enfeitiçar jovens e adultos e mostrar-lhes que a verdadeira magia é muito mais do que fazer um gesto com a varinha mágica e pronunciar umas palavras esquisitas, mas sim o que um livro esconde atrás das suas linhas, por sua vez exponenciado pelos nossos sentimentos e imaginação.

Ao ser traduzido em mais de 70 línguas, incluindo o latim e grego antigo para incentivar o estudo das línguas clássicas, Harry Potter e a Pedra Filosofal ainda é um fenómeno mundial que irá para a história da literatura juntamente com obras da autoria de Shakespeare, Jane Austin e outros famosos autores. Mesmo este tempo todo depois, são verdadeiras as palavras da Professora McGonagall, perita em Transfiguração e aparentemente também em Adivinhação, sobre Harry Potter “…vão escrever-se livros a seu respeito, todas as crianças do nosso mundo conhecerão o seu nome!” Sempre.

Transgressão terminada,
Diogo Cortes Lopes, 5º ano