Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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Qualquer estudante de Medicina está hoje sobejamente familiarizado com as vicissitudes da relação médico-doente. A temática é recorrente em diversas áreas disciplinares e as poucas lacunas que possam existir são colmatadas através de incontáveis formações e workshops sobre comunicação, ao mesmo tempo que existe nos serviços um professor desejoso por reforçar a importância do tema, talvez por desconhecimento do quanto convivemos com ele ao longo do curso.

É uma insistência compreensível. Apesar destes esforços, as atitudes cínicas perante os doentes estão a tornar-se mais frequentes entre os profissionais de saúde, situação que tende a agravar com a progressão da carreira médica (Batley et al, 2016). Como se ao percurso do clínico estivessem inerentes os passos das suas emoções, deslocando-se inexoravelmente da empatia para o distanciamento.

Simultaneamente, estudos acerca da metacognição emocional dos profissionais revelam resultados intrigantes (Kasket et al, 2007). Questionados acerca da percepção sobre as suas próprias emoções, vários dos médicos entrevistados apontam o peso do estereótipo, preconceito silencioso que classifica de desadequado evidenciar emoções genuínas face a um doente que sofre ou não sobrevive, sendo este gesto considerado um sinal de fraqueza ou mesmo de incompetência.

É vastíssima a bibliografia que sugere qual deve ser a reação emocional considerada adequada para um profissional de saúde, mantendo sempre como foco primário a emoção do doente. Existem, inclusivamente, indicações precisas sobre como deve ser adaptada a demonstração das emoções do clínico consoante fatores como o estado de ansiedade do seu doente (Yagil et al, 2016). Tudo isto, como se a criatura em questão fosse constituída de uma qualquer maquinaria equipada com reguladores de emoções e expressões faciais.

O profissional de saúde caracteriza-se pela especificidade incomparável de ter como “objeto” de trabalho a vida humana. Esta é uma trivialidade aparente que no entanto determina que o seu dia-a-dia consista em lidar sequencialmente e de forma eficaz com objetos quebrados, amolgados, por vezes irreparáveis; e simultaneamente demonstrar empatia, sem perder o controlo emocional, gerar interpretações desadequadas ou deixar que estes sentimentos turvem o raciocínio e os gestos clínicos a realizar com o doente seguinte.

Aparentemente condenados a viver num limbo emocional entre a vocação que os leva a emocionarem-se com os doentes, a almejada postura neutra que devem manter, e o distanciamento emocional que tanto usam como fator de proteção, muitos médicos caem na depressão, na despersonalização ou no cada vez mais mediatizado burnout. Com um conhecimento cada vez mais aprofundando sobre a emoção do outro, carecem de ferramentas para gerir as suas próprias emoções e lidar com situações traumáticas, mais frequentes do que se possa imaginar.

A morte de um doente é o exemplo mais premente, mas este processo carece particularmente de linearidade. Depende da experiência do médico, da sua personalidade, da própria história do doente, compondo um espetro que inclui conceitos tão diversos como a tristeza, a frustração, a certeza do dever cumprido, a culpa ou a indiferença.

É especialmente particular a sensação de mecanização. Pode suceder que perante a morte de um paciente, o médico careça literalmente de tempo para processar a perda porque um novo doente requer atenção, situação que é particularmente frequente em países em desenvolvimento (Petrites et al, 2016) e que gera um desgaste progressivo que promove mecanismos de proteção como o distanciamento, ironicamente relacionado com uma maior probabilidade de sofrer depressão e burnout (Kerasidou et al, 2016). Esta estratégia também é profundamente lesiva para a relação médico-doente a longo prazo, como comprovam estudos realizados em hospitais nacionais (Silva et al, 2016).

Experiências como estas geram assim sérios desafios emocionais e existenciais. No seio da profissão médica, significa aceitar que não se conseguiu oferecer uma solução para o problema, o que representa uma agressão à própria identidade profissional, à qual acresce a agressão existencial, isto é, o desafio às convenções existenciais sobre a vida e a morte.

Estes danos determinam que as “tarefas a cumprir” através do chamado mecanismo de coping passem pela reparação dessas feridas. A gestão emocional, o ajustamento das expectativas, a restruturação cognitiva e a reconstrução da entidade pessoal e profissional são quatro dos pilares fundamentais neste processo.

A procura da regulação emocional é quase mandatória. Apesar de que grande parte dos profissionais tema sobrecarregar outras pessoas ao abordar estes temas (Granek et al, 2016), estão descritas inúmeras formas de recorrer ao suporte social como forma de coping por excelência (Forster et al, 2015). A maioria dos profissionais menciona a importância de falar com a familia ou amigos, sendo que os laços com a família dos pacientes também são relevantes. Dependendo da especialidade em questão (em Cirurgia o contacto com os familiares é rápido e extingue-se muito mais abruptamente do que no caso da Oncologia, por exemplo), grande parte dos profissionais considera benéfico participar do luto com a família como forma de atingir alguma tranquilidade e confrontar com a situação.

Igualmente crucial é a existência de apoio entre os pares, fundamentais na reconstrução da identidade profissional e ajustamento de expectativas mas também numa atenuação global dos sentimentos negativos por contágio emocional. Investigações realizadas no sentido de compreender a extensão deste fenómeno a nível hospitalar (Petitta et al, 2016) sugerem que os médicos “absorvem” os sentimentos de alegria e raiva dos seus pares, sendo que o contágio de sentimentos negativos está correlacionado com o aumento da exaustão e dos comportamentos cínicos. Existem hospitais onde a discussão destes assuntos é encorajada semanalmente nas reuniões de mortalidade e morbilidade o que também desmistifica um debate que é muitas vezes olhado com estranheza e desconforto.

A restruturação cognitiva também tem um papel importante. Muitos profissionais concentram-se em fazer a diferença oferecendo os melhores cuidados possíveis, revendo os casos em busca de aspectos que possam ser melhorados ou dedicando-se à investigação das situações que a medicina ainda não consegue reparar. Esta restruturação passa também pelos hobbies, pela distração e em última instância, pela construção de uma identidade pessoal que engloba a profissional mas tem muitas outras valências.

Na realidade, a particularidade do médico não reside nos mecanismos de adaptação que utiliza, que tendem a variar consoante o seu nível de inteligência emocional. Reside no paradoxo entre a enorme frequência com que devemos encarar situações destas e a reduzida preparação dos estudantes para as ultrapassar.

Talvez o maior desafio seja repararmo-nos a nós próprios, quando o outro não pode ser reparado.

Pilar Simões, 4º ano