Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Escolhido Edição 1

Estar vivo caracteriza-se por reviravoltas inesperadas e situações de risco que podem emergir a qualquer instante e em qualquer lugar. Politraumatismos, hemorragias, queimaduras, convulsões e afogamentos são apenas alguns exemplos de condições cujo prognóstico depende de uma resposta corajosa, rápida e adequada no momento da ocorrência. Ao conjunto das ações que constitui essa resposta imediata que ambiciona salvar uma vida e/ou reduzir os efeitos da lesão ou doença antes da chegada de ajuda médica dá-se o nome de Primeiros Socorros.

A frágil imprevisibilidade da vida e a crescente literacia da sociedade ocidental parecem premissas de uma dedução óbvia: a maioria dos indivíduos estão formados em primeiros socorros, estando preparados para agir adequadamente perante uma emergência médica. Contudo, na prática, isso não acontece – e se tal é lamentável na sociedade em geral, mais o é em estudantes de medicina.

Julgo não precisar de estudos que atestem a veracidade do que escrevo. Por um lado, por muito que os quisesse mostrar, não conseguiria. A pesquisa que fiz levou-me a crer que estes são escassos e inexpressivos. Por outro lado, escrevo para colegas que, decerto, se reveem nesta situação. É natural que já tenham sentido, enquanto estudantes de medicina, o peso da responsabilidade de prestar primeiros socorros em determinadas circunstâncias; sentimento esse que, salvo exceções asseguradas pelo meritório autodidatismo, veio acompanhado do reconhecimento da nossa incapacidade de agir ou de o fazer com confiança.

De facto, o currículo das Escolas Médicas em Portugal é manifestamente insuficiente nesta temática, incluindo apenas SBV, o que nos deixa aptos a realizar manobras de reanimação cardiorrespiratória através da técnica de compressão cardíaca externa. Portanto, segundo o que nos ensinam na faculdade, ou a vítima está em paragem cardiorrespiratória e se realizam manobras de reanimação, ou está a respirar e é colocada em posição lateral de segurança. A limitação destes conhecimentos é evidente face à panóplia de situações com que podemos ser confrontados. Urge a resposta à pergunta: O que se pode fazer?

Em primeiro lugar, defender a inclusão de uma disciplina de Socorrismo no currículo médico português, que dê primazia ao treino prático em circunstâncias de simulação e não ignore a necessidade de revisão e reavaliação dessas competências periodicamente. São cada vez mais numerosas as chances que temos para discutir o nosso ensino –  dêmos-lhes uso! Muitas são as escolas médicas que, um pouco por todo o mundo, já têm unidades curriculares, não raramente em diferentes anos do curso, que preparam os seus alunos para urgências e emergências extra-hospitalares.

Enquanto a nossa advocacia não chega a lado nenhum, podemos (devemos) ser pró-ativos e aproveitar as oportunidades ao nosso dispor. Não digo que nos inscrevamos num curso de socorrismo, visto que, com frequência, o seu valor não é facilmente suportável pelo bolso de um estudante universitário, e que existem formas mais acessíveis de adquirir esses conhecimentos. Podemos, a título de exemplo, realizar um estágio de observação gratuito no Instituto Nacional de Emergência Médica. Efetivar um pedido de estágio não custa mais do que cinco minutos a preencher uma candidatura online.

Similarmente, conseguimos preencher algumas lacunas nesta área em atividades formativas ora organizadas pela Associação de Estudantes, ora presentes no registo de workshops em congressos organizados por estudantes de medicina.

Por último, incube-nos o dever de atualizar os nossos conhecimentos sobre esta matéria, ainda para mais quando temos tanta facilidade em aceder à informação. A este propósito, encontrei recentemente um documento elaborado pela DGS, intitulado “Manual de Primeiros Socorros – Situações de Urgência nas Escolas, Jardins de Infância e Campos de Férias” e que, apesar de mais direcionado para o contexto pediátrico, descreve procedimentos que podem ser utilizados de forma mais abrangente, em qualquer faixa etária. Se estiverem interessados em fazer uma sistematização de noções de socorrismo, atrevo-me a dizer que esta seria uma boa opção de leitura.

Em jeito de nota final, gostaria de realçar que a aptidão em primeiros socorros tem de ter como principal aliada a sensatez. Devemos ajudar, mas correndo o mínimo risco de prejudicar a vítima. Para isso, convém reconhecer as nossas limitações e ter certeza no que estamos a fazer.

Sou estudante de medicina. Quero poder ajudar.


Sofia Rosado Julião, 5º ano
Ilustração: Sofia Morgado, 3º ano