Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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O despertador toca e enrolo-me ainda mais profundamente nos lençóis, quero que a sensação de calor e descanso perdure, nem que seja por mais um segundo. Todavia, começo a ficar com remorsos e a pensar na quantidade de coisas que tenho para fazer e no tempo que estaria a desperdiçar ali e acabo por me levantar, ainda que um pouco a contragosto. Lá fora, a única luz é a artificial, mas já se ouve carros a passar, transportando pessoas apressadas até ao seu destino. Saio de casa depressa: a nova vida não deixa perder mais tempo que o estritamente necessário.

É engraçado ter que atravessar o hospital para ter aulas. Todos os dias a caminhada é distinta: vêem-se pessoas novas com expressões no rosto diferentes, mas, inevitavelmente, a minha mente acaba a deambular pelos mesmos lugares um pouco sinistros. Pelos corredores do hospital avistam-se pessoas com pressa ou com pouca vida nos movimentos, umas alegres, outras chorosas, pessoas apáticas… doentes que, ora nem se percebe o que têm, ora é claro como água que não estão nada bem.

Não vou negar que há momentos muito felizes num hospital: há quem receba boas notícias, há quem saia de lá como novo, há familiares e amigos que finalmente recebem alta ao fim de tanto tempo. Mas, geralmente, um hospital é um lugar infeliz. As pessoas que lá entram não estão bem, pode não ser nada muito grave, mas, para terem decidido lá ir, é porque se estão a sentir mal. É o local onde ficamos a saber que temos uma doença terminal, ou que um ente querido sucumbiu, é o local onde todos andam cansados, debilitados pela doença ou pelo trabalho. É nestes corredores que paira uma nuvem negra de medo e de desgosto. Por vezes, pergunto-me porque é que decidi escolher uma vida em que vou estar diariamente em contacto com um dos locais mais infelizes do mundo.

O tempo aperta e tenho que prosseguir a minha caminhada. Passo o dia em aulas exigentes (tento não ceder aos outros pensamentos) e a tentar arranjar um espacinho no horário que me permita estudar e continuar a envolvida na vida da faculdade, pertencendo a comissões, indo a conferências e projetos, não desistindo das minhas paixões, como a escrita e o teatro, e não descurando da família e amigos. Passado um tempo conseguimos perceber que estas coisas nos ajudam a ter vontade de continuar e que as consequências de não as fazermos conseguem ser piores do que o contrário, e, na verdade, o tempo estica quando realmente necessitamos.

Já é de noite outra vez quando volto para casa. Lisboa abranda, mas nunca para e isso é deslumbrante. Quando finalmente chego, tenho que recuperar aquele tempo que muitos consideram perdido e que, contudo, nunca o será para mim. Tenho matéria para pôr em dia e aulas para preparar.

Quando as pálpebras já pesam, decido que o meu dia foi intenso o suficiente e que posso dá-lo por terminado. Se tiver sorte, ainda durmo seis horas. O meu corpo é atraído para os lençóis e cobertores que me vão acolher, permitindo às engrenagens do meu cérebro finalmente parar. No entanto, ainda não é aqui que tenho descanso. Porque é que decidi passar a minha vida num dos lugares mais tristes do mundo? A pergunta que nunca desiste de se fazer ouvir. Pois bem. Posso estar exausta, posso estar triste e só querer ir para casa quando atravessar os corredores do hospital com a bata branca, mas vou estar em paz de espírito. Vou estar a dar o meu máximo para que as pessoas que entram por aquela porta cabisbaixas saiam de lá com um sorriso na cara. Vou esforçar-me por acalmar quem está mais nervoso e com mais medo. Sei que nem sempre tudo irá correr bem, mas vou ajudar a tornar o meu futuro num local mais feliz. É esse o meu objetivo. É isso que vou fazer: tornar um dos lugares mais infelizes do mundo num local um pouco mais aprazível.

Inês Costa Louro, 1º ano