Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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É Sábado. Acordei cedo, porque o meu corpo já se recusa a sair da rotina e, tal como todos os dias, a primeira coisa que fiz foi abrir a janela do meu quarto com curiosidade de saber como amanheceu o dia lá fora. Uma luz intensa dominou todo o espaço, mas rapidamente me apercebi que algo neste novo dia estava diferente. Apesar de soalheiro, não senti a necessidade de deixar a janela aberta, não liguei a ventoinha e tive rapidamente de ir buscar um casaco porque a t-shirt já não me parecia suficiente. Tornou-se então óbvio que os primeiros dias de Novembro trouxeram consigo os primeiros dias do Outono. No entanto, é difícil não notar o quão tarde este Outono chegou. Sim, é verdade que o dia de S. Martinho continuará a ter as deliciosas castanhas quentinhas e que a época natalícia não deixará de ser acompanhada pelos casacos, gorros, chocolate quente ao calor de uma tão desejada manta. Para trás, fica, contudo, um mês de Outubro muito longe da normalidade, um mês de Outubro sem folhas a cobrirem as ruas, sem o carro das castanhas à porta do Hospital e onde as temperaturas se mantiveram frequentemente acima dos 30 graus.

Numa tentativa de me abstrair destes pensamentos, decidi abrir o Facebook. Tentativa falhada. O primeiro evento que me aparece no feed intitula-se “Sessão de Apresentação do novo documentário de Al Gore” e de forma quase imediata todos estes diferentes pensamentos e preocupações voltam a invadir-me. Al Gore é uma das personalidades ou mesmo a personalidade que mais procura mudar mentalidades e comportamentos no campo das alterações climáticas. Há anos que procura consciencializar não só a população em geral como também os grandes líderes mundiais para esta problemática. Aliás, atrevo-me mesmo a dizer que sem a sua intervenção questões como o aquecimento global seriam ainda um assunto tabu na nossa sociedade. Por tudo isto, não pude deixar de tentar saber mais sobre o seu novo trabalho e senti-me feliz por não ter de o fazer ao som da ventoinha ligada.

Intitula-se “An Inconvenient Sequel: Truth to power”, estreou no Verão e, tal como o próprio nome indica, visa dar continuidade a “An inconveniente Truth”, que estreou em 2006 e que em 2007 ganhou o Óscar de Melhor Documentário. O facto de ter sido necessária a realização de uma sequela centrada no mesmo tema leva-nos a pensar que provavelmente as mudanças drásticas que precisavam ser feitas não foram concretizadas e que, por isso, a verdade inconveniente com a qual, entre 1993 e 2011, o antigo vice-presidente dos Estados Unidos nos tentou confrontar não teve o impacto e a repercussão que deveria ter tido. No entanto, o objetivo de Al Gore não é de todo tornar este documentário uma repreensão, mas sim avaliar os 10 anos no seu todo, realçando claro os aspetos negativos, mas não deixando nunca de pôr em evidência os avanços que se conseguiram alcançar. Há, portanto, uma questão que serve de fio de condutor a “An inconvenient sequel”: Que mudanças se deram nesta última década?

Uma das modificações mais relevantes centra-se no tipo de evidências ao nosso dispor. Em 2006, para se conseguir justificar que o nosso planeta estava a mudar como consequência da atividade humana, tornava-se necessária uma exposição exaustiva de números, gráficos e o discurso tinha de ser dominado por uma linguagem de índole meramente científica, para que se tornasse credível aos olhos do público. Hoje em dia, a evidência está patente no nosso dia a dia, bastando olhar pela janela para percebermos que o que estamos a vivenciar não é normal. Desde o ano de estreia do primeiro documentário, as concentrações de CO2 na atmosfera aumentaram de 381 ppm para 406 ppm e a temperatura global aumentou 0.36º celsius. Para além disso, as grandes catástrofes naturais tornaram-se indubitavelmente mais frequentes. O período de seca que ocorreu na Síria entre 2006 e 2010 é um bom exemplo de como estas catástrofes transcendem o plano ambiental e acabam por afetar outras áreas do campo socioeconómico, tendo em conta que 1,5 milhões de refugiados ambientais tiveram de se deslocar para as grandes cidades, após verem as suas fontes de rendimento completamente dizimadas.

É importante ressalvar que o planeta terra serve de casa a muitos outros seres e que, por isso, as consequências das alterações climáticas não se restringem ao Ser Humano, afetando uma série de ecossistemas. A nossa indiferença para com o legado que Darwin nos deixou tornou-se, no entanto, tão gritante que está prevista uma extinção de 50 % de todas as espécies até ao final do século.

Para além dos números claramente longe do desejável, um dos aspetos mais dececionantes continua a ser a imutável posição de alguns líderes mundiais. A primeira vez que assisti a “Uma verdade Inconveniente” foi no 7º ano, numa aula de geografia. Recordo-me que um dos momentos que mais me impressionou foi um excerto de um discurso de George W. Bush, em que este afirmava não existirem provas conclusivas para o aquecimento global. Cerca de 10 anos depois, temos ao nosso dispor milhares de novas evidências científicas e mesmo assim, mesmo com o conhecimento que esta última década nos trouxe, a história repete-se: não com Bush, mas sim com Trump. O trailer de “An inconveniente sequel” inicia-se, aliás, com as seguintes palavras de Donald Trump: “It’s supposed to be 70 degrees today and it’s freezing here. Speaking of global warming, where is it? We need some global Warming!”. Palavras que deixam indiferentes os conformados, que alegram os que negam a evidência e que indignam os que não se deixam resignar, sentindo a necessidade de agir.

Neste cenário aparentemente catastrófico, Al Gore consegue mesmo assim valorizar os avanços e ressalvar as grandes vitórias alcançadas. As energias renováveis, por exemplo, tornaram-se cada vez mais acessíveis e, em certas regiões, chegam mesmo a ser mais baratas do que os combustíveis fósseis. Para além disso, o Acordo de Paris acabou por ser também um grande marco, já que a responsabilização ambiental passou a incluir não só os países desenvolvidos como também os países em desenvolvimento.

A mensagem final de “Uma sequela inconveniente” continua a ser, portanto, uma mensagem de esperança e como o próprio Al Gore afirma “depois de tudo, o desespero é uma outra forma de negação”. É então importante não nos conformarmos com o Outono tardio, com a ausência do carro de castanhas ao pé do Hospital, com a ventoinha ligada, com o casaco que ficou esquecido, porque a t-shirt era suficiente. É importante não nos conformarmos e jamais esquecermos este Outubro inconveniente.

Bárbara Rodrigues, 3º ano
Ilustração: Ricardo Sá, 3º ano