Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Ress 27 04

Desde o início do ano que Portugal tem vindo a assistir a mais um surto de Hepatite A, cuja dimensão acarreta todas as preocupações inerentes a um problema de saúde pública. E naturalmente, as dimensões mediáticas do problema crescem em paralelo. Seguem-se notícias atrás de notícias: “Surto de Hepatite A em Portugal”, “Vacina passa a estar isenta de taxas moderadoras”, “Vacina suspensa nas farmácias”… À enchente de notícias seguem-se as publicações nas redes sociais e os comentários nos sites dos jornais que, com mais ou menos informação, contribuem para o estado alarmista em que inevitavelmente se entra quando alguém pronuncia a palavra “surto”.

A palavra “surto” tem tudo para assustar. Contudo, neste caso, é importante sublinhar que não se trata de uma catástrofe. Em inícios de Abril, estavam contabilizados 138 casos diagnosticados de hepatite A. O que importa é que se identifiquem os principais grupos de risco e que estes se vacinem. A Direção Geral de Saúde emitiu inclusivamente um conjunto de diretrizes este mês no que toca à vacinação.

A hepatite A é uma infeção aguda causada por um vírus da família Picornaviridae. A transmissão é feita principalmente por via fecal-oral, através da ingestão de alimentos ou água contaminados (sobretudo em zonas com condições de higiene deficitárias), ou por contacto próximo interpessoal com indivíduos infetados (familiar, intra-institucional ou sexual – através de práticas de sexo anal e oro-anal, sobretudo entre indivíduos homossexuais masculinos). A infeção pelo vírus da hepatite A em adultos e em crianças com mais de 6 anos provoca, em mais de 70% dos casos, doença clínica (hepatite aguda), a qual cursa com sintomas como febre, mal-estar, icterícia, anorexia, náuseas, vómitos e dor abdominal. Não existe tratamento específico para a hepatite A, baseando-se apenas em medidas de suporte e controlo sintomático. São raros os casos em que a infeção provoca hepatite fulminante com quadro de insuficiência hepática.

Quais são afinal os principais grupos de risco, ou seja, quais os indivíduos que devem ser vacinados? São elegíveis para vacinação indivíduos do sexo masculino que pratiquem sexo anal ou oro-anal com indivíduos do mesmo sexo e que se desloquem ou vivam em locais afetados pelo atual surto, assim como viajantes com destino a países endémicos para hepatite A, excecionalmente. Estes indivíduos são vacinados apenas uma vez, sendo que a vacina está isenta de taxas moderadoras. Em contexto pós-exposição ao vírus, até 2 semanas após a última exposição, as pessoas que vivem ou tiveram contato sexual com pessoas com hepatite A devem ser vacinadas. Se já tiverem decorrido 2 semanas, a vacina já não está indicada.

Se o leitor pesquisar sobre a vacinação para a hepatite A, encontrará muitos blogues a protestar contra as vacinas, muitos argumentando que as vacinas são nefastas e que tudo não passa de um negócio das indústrias farmacêuticas em detrimento dos interesses dos doentes. Toda esta polémica da vacinação, seja para o sarampo ou para a hepatite A, tem uma solução: a ativa procura do saber. Acima de tudo, o importante é que as pessoas se informem, pratiquem sexo seguro e, caso seja necessário, se vacinem.

Catarina Nunes, 3º ano