Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
Trump Ressonas

9 de Novembro de 2016.

Desengane-se quem menospreza este dia como meras 24 horas.

Elucide-se quem se apresenta desentendido com a realidade política e social internacional.

Clarifique-se as consequências ao sensacionalista eleitor norte-americano.

Proteja-se quem fugiu em busca de uma vida melhor.

Conforte-se quem idealizou uma América livre e onde a globalização mundial podia encontrar um exemplo.

E, essencialmente, penteie-se o despenteado.

 

Posso indubitavelmente afirmar que o surpreendente resultado das quinquagésimas oitavas presidenciais americanas é um marco histórico e um autêntico turning-point para todos os paradigmas políticos internacionais. Aquela que se considera, de todas, a mais poderosa nação, conseguiu mais uma vez deixar-nos boquiabertos e estupefactos com a escolha que tomou para os próximos quatro anos. E que penosa escolha. Quantos de nós, há mais de trezentos e sessenta e cinco dias atrás, consideravam sequer possível a eleição de Donald J. Trump para representante republicano?

Desde Julho do presente ano, existiam a priori dois candidatos com maior probabilidade de sucederem ao primeiro presidente afro-americano. São inegáveis as diferenças que apresentavam, não só nos seus septuagenários currículos, como em quase todas as ideias e propostas que revelavam ao povo norte-americano.

Por um lado, apresentava-se uma candidata democrata com vasta experiência legal e política. Antiga advogada, senadora, primeira-dama e, mais recentemente, Secretária de Estado de Obama, antes do actual democrata John Kerry. Defendia principalmente a continuação do bom trabalho realizado pela administração anterior com, obviamente, alterações e ideias próprias de qualquer candidato. Apoiava as tomadas de posição de Obama em relação a questões sociais, como a possibilidade dada à mulher de poder abortar ou a possibilidade do casamento gay. Pretendia continuar a caminhar em direcção a um país mais ecológico, contrariando a actual posição dos EUA como um dos países mais poluidores. Hillary não se apresentava descansada também com a actual posição americana em relação à posse de armas. Motivada pelos conhecidos casos violentos envolvendo os mais diversos sujeitos, almejava a restrições muito mais rígidas que as existentes. Hillary ambicionava também aumentar impostos à classe alta, de modo a que fosse possível elevar o salário mínimo nacional. Uma das suas grandes bandeiras centrava-se na igualdade entre sexos, fazendo da ex-futura primeira Presidente americana o expoente máximo da voz contra a injustiça salarial feminina. Como qualquer democrata, defendia a continuidade do “Affordable Care Act”, ou mais frequentemente referido como ObamaCare”, que tinha como objectivo alargar o número de cidadãos a conseguirem usufruir do plano, reduzindo os custos e desenvolvendo alternativas públicas, contrariando a soberania privada neste âmbito. Todavia, torna-se impossível de falar de Clinton sem se abordar o tão debatido tema referente à utilização do seu endereço electrónico pessoal para assuntos estatais, bem como o posterior desaparecimento de um conjunto de mensagens. Porém, depois de várias investigações realizadas pelo FBI, não foi encontrado qualquer registo criminoso e a própria assumiu a culpa e reconheceu o grande erro que cometeu.

No outro lado da moeda, o partido de Lincoln, Grant, Hoover, Eisenhower e Reagan elegeu um controverso candidato com cartas dadas no mundo empresarial e indústria do show-off. Dono da sua própria empresa, “The Trump Organization”, desde muito cedo aparece nos holofotes dos media norte-americanos pelas inúmeras controvérsias, ou pelas suas opiniões sobre os mais diversos temas. Ganhou muito mediatismo através do reality-show “The Apprentice”, programa onde os participantes, sob a tutela de Trump, tentavam aprender e crescer no mundo do negócio. O mais velho e próximo presidente da terra de todos os sonhos, enveredou desde o início da sua campanha por discursos radicalizados na vertente migracional, recebendo muita atenção pelo seu desejo de uma América separada do restante mundo ocidental e oriental, por muros de betão. E, como é abertamente sabido, não falamos apenas em muros de cariz regulamentar, fiscal ou social. O candidato conservador tinha como mais espampanante objectivo, construir um muro na fronteira com o México, sendo pago, na totalidade, pela república mexicana. Justificou a ideia pelo, segundo suas palavras, grande número de cidadãos ilegais mexicanos, bad hombres – como celebrizou no terceiro e último debate -, os quais fariam aumentar marcadamente a taxa criminal no país. Nesta onda ideológica, o antigo democrata sonhou e consequentemente transmitiu ao povo o seu conceito de uns novos Estados Unidos da América: uma nação mais fechada em si, menos interventiva externamente e céptica no que toca a alianças e pactos. Prometeu, entre outros, deportar 11 milhões de cidadãos ilegais. Copiosamente disse querer rever os pactos internacionais, como o NAFTA, exigindo um pagamento maior por parte dos restantes aliados pela protecção dada pelos E.U.A., mas não só. Chegou mesmo a ameaçar a saída dos E.U.A. da NATO, do qual são elemento fulcral. Simultaneamente foi entendido que ambiciona melhores relações com a Rússia. Quase nada foi abordado na sua candidatura em relação às alterações climáticas e, apesar de o ter negado num dos recentes debates, afirmou em dois mil e doze, através da rede social Twitter, que o problema referente a essas alterações teria sido produzido pela China de modo a tornar o comércio norte-americano menos competitivo. Está portanto dentro da maioria republicana no que toca a este ponto: não existem provas suficientes que suportem as mudanças referidas. Porém, referiu que o acesso generalizado a água potável seria um dos seus principais objectivos. Crítico major ao ObamaCare”, prometeu de imediato findá-lo sem oferecer alternativas concretas, referindo que o mesmo se apresentava como um desastre e um grande peso para o povo americano. Em relação à posse de armas não podia estar mais no lado oposto a Clinton. Desde o início que defendeu o direito de qualquer americano a possuir uma arma, alegando a necessidade de protecção em determinados bairros. Donald J. Trump apresentava-se igualmente do outro lado do rio a respeito do aborto e direito gay. Se Clinton apresenta um extenso currículo político, Trump iguala-a curricularmente em polémicas. A mais recente, mas não única, refere-se a um modo singular, a seu ver, de lidar com o sexo feminino. Impossível esquecer quando duvidou da origem de Barack Obama, ou das afirmações em público desmentindo comprovadas declarações do mesmo. Exemplo é a gravação em que é possível ouvir numa entrevista radiofónica, por suas palavras, que era a favor da invasão do Iraque, facto este que depois negou, afirmando nunca ter proferido algo semelhante.

Dito isto e estando os principais destaques em cima de mesa, permaneço boquiaberto com o lado para o qual a balança do povo americano tombara. Sim, por parte dos eleitores, não a sua maioria. No Colégio Eleitoral Americano, a cada estado corresponde um determinado número de votos colegiais, sendo estes equiparáveis ao número de representantes no Congresso. Assim, se um candidato tiver a maioria dos votos, por exemplo do estado de onde é natural Trump – Nova Iorque – ganha a totalidade dos 29 votos pertencentes ao estado. No total tem de pelo menos conseguir 270 para ser eleito. Com este sistema foi possível George W. Bush ou Trump serem eleitos, apesar de terem tido menos milhares de votos em relação a Al Gore ou Clinton, respectivamente. Será um método justo? Estou ciente dos argumentos a favor do método, referindo que de alguma forma faz a voz dos estados menos populosos ser ouvida de forma mais atenta. Todavia não consigo concordar com este método eleitoral tão antigo como os próprios E.U.A.. Menospreza uma maioria populacional. Menospreza todo o conjunto de eleitores que em todos os estados querem a sua voz representada. Não afirmo que não é um método democrático, porque o é. Porém perturba-me que 395 050 cidadãos, que cumpriram para com o seu dever e direito, quase não contassem. Infelizmente, duvido que nos próximos largos anos seja alterado. Até lá a vontade estatal continuará à frente da do cidadão.

Contra todas as projecções publicadas, custe a quem custar, o bilionário tornar-se-á o quadragésimo quinto Presidente do Mundo Livre. E a mim custa-me. Custa-me pensar que, desde que coabito com qualquer um de vós, este foi o maior feito político que presenciei. O que mais me incomoda não é o facto de ainda não ter sido uma mulher, porque em mim há a certeza de que inevitavelmente vou ter a sorte de, durante a minha curta ou longa vida, ver esse feito ser alcançado. Desassossega-me o estado a que o nosso mundo parece lentamente estar a voltar. Este pensamento antiglobalização, onde a desconfiança interna das nações predomina, já causou grande luto à humanidade. “Those who cannot remember the past are condemned to repeat it”, disse há uns bons anos George Santayana. Contudo, parece que vamos andando em círculos, em que não se aprende. Não é o meu país, não é certamente onde pertenço. Mas é inegável a dimensão destas presidenciais e, inevitavelmente, qualquer um de nós é influenciado pelos seus resultados. Estes não transmitem apenas mensagens ao povo americano, mas a todos nós. E as mensagens, do meu ponto de vista, não são animadoras. Tantos foram os conceitos que ganharam naquela noite: sexismo, xenofobismo desmedido, hipocrisia, antiglobalização, ilusionismo político, antipatriotismo,… Sim, antipatriotismo! Os E.U.A. são, e sempre serão, uma nação construída e elevada ao patamar em que hoje se apresentam devido a todos os seus migrantes. Este é ponto intocável e incontestável. Toda a política almejada por Trump segue na direcção oposta. Um autêntico contra-senso e um duro golpe num dos mais básicos fundamentos daquela nação. Peço que se desmarquem de ideologias políticas, ou de qualquer fundamentalismo ideológico e que reflictam no que a vitória de Donald Trump representa.

Como esperado, o recente eleito Presidente já começou a fazer algumas observações antagónicas em relação ao anteriormente prometido. Foi retirada do seu site oficial de campanha alguma informação, como por exemplo, a relativa à deportação em massa islâmica, entre outros assuntos. Recentemente referiu existir a possibilidade de não acabar totalmente com o Affordable Care Act”. Não nego que semelhante ideia me deixa satisfeito. Será sempre o maior feito da administração de Obama. Todavia é irrefutável reparar na sua dissimulação e populismo perverso.

Trump vai ter durante a sua presidência algo que Obama nunca teve: ambas as câmaras do congresso – senado e câmara dos representantes – maioritariamente republicanas. Se obteve aprovação por todo o partido republicano? Naturalmente que não. É, no entanto, uma vantagem. O mais alto representante republicano é, sem espaço para questões, Donald Trump e este foi aceite pelo partido para seu candidato. Assim sendo, e em princípio, apresentará maior flexibilidade e facilidade em navegar por caminhos por si definidos.

É o fim do mundo? Não, não é. Muito pelo contrário. O resultado destas eleições só nos deve impelir a ser cada vez mais activos social e politicamente, de modo a que ideias semelhantes às de Trump não se vulgarizem pela Europa; ideias baseadas na desconfiança e clausura nacional. Atenção, não estou a pedir que se afiliem a partidos obrigatoriamente. Um resultado justo eleitoralmente é tanto mais verdadeiro e válido politicamente, quanto mais informados e activos formos na sociedade em que estamos inseridos. É um erro achar que na política só se achará imundice e que todos os seus representantes em nada se distinguem. É um erro ainda maior votar por mera suposição, ou por descontentamento, sem ir ao fundo das questões e tentar descobrir os porquês, em vez de se ficar meramente por sensacionalismos mediáticos, ou informação vaga de imprensa. Impilo-vos a que sejam diferentes e que, tal como desde há muito me foi ensinado, façam por deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraram.

E espero, acima de tudo, que daqui a 4 anos consiga perceber que estava completamente equivocado.

Afonso Schönenberger Braz, 4º ano