Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
RESSONÂNCIA

 

Volvidos cem anos, ainda hoje é impossível ficar indiferente face ao acontecimento mais marcante do século XX. A Revolução Russa de 1917 tornou-se um elemento tão fundamental para a história deste século como a Revolução Francesa de 1789 para o século XIX. Contudo, o período revolucionário russo teve repercussões muito mais profundas e globais que a sua antepassada. A importância para o novo século é, de forma semelhante, uma realidade insuperável.

O ano de 1917, na verdade, contemplou dois momentos revolucionários distintos: a revolução de Fevereiro (catalisada pelas desastrosas consequências socioeconómicas da I Guerra Mundial), que pôs um ponto final a mais de três séculos de reinado pela dinastia dos Romanov e introduziu um breve período democrático com a formação de um governo provisório, e a mais conhecida Revolução Bolchevique de Outubro*, liderada por Lenine e Trotsky (Estaline nesta altura não passava de um taciturno membro do partido), e seguida por uma violenta guerra civil que devastou o país até ao ano de 1922.

Embora seja tentador classificar a Revolução de 1917 como mais um golpe de usurpação de poder no meio de tantos outros desse negro século XX, importa aqui evidenciar algumas características que distinguem este momento histórico de qualquer outro. Outubro permanece vivo na nossa memória colectiva pela esperança na promessa de um mundo melhor que encabeçava. A Revolução sobrevive, não por obstinação ideológica, mas pela crença profunda que a índole do ser humano pode mudar. Ao contrário da maior parte dos golpes essencialmente tradicionalistas do século XX, as novas ideias faziam parte da espinha dorsal de 1917. Movimentos dos mais variados tipos, vanguardas artísticas, inovações transgressoras na psicologia, pedagogia, música, literatura, pintura e história foram prolíficos nos anos que se seguiram à Revolução. Como exemplo, as mulheres viram o seu estatuto revolucionado: ganharam o reconhecimento como cidadãs, iguais aos cidadãos masculinos, o direito ao voto, o direito a eleger-se, salários iguais, proteção à maternidade, legalização do aborto, facilitação do divórcio, entre outras medidas impensáveis na altura até mesmo para os regimes democráticos Ocidentais. Importa aqui talvez relembrar o caráter retrógrado do regime czarista, anterior a 1917, onde por exemplo constituía tradição, principalmente no campo, oferecer aos noivos um chicote para castigarem as suas esposas.

Não nos deixando levar pelo êxtase revolucionário de 1917, importa também relembrar a face negra dos anos que se seguiram à Revolução. No combate aos inimigos de classe, o líder da futura URSS mostrou ser um homem genial, pragmático mas, acima de tudo, frio e cruel. Durante a Guerra Civil entre vermelhos (bolcheviques) e brancos (conceito que engloba inúmera facções, desde socialistas revolucionários a monárquicos e liberais), Lenine não demonstrava qualquer tipo de pudor no extermínio de camponeses revoltosos (“É preciso dar uma lição. Enforcar (enforcar obrigatoriamente para que o povo veja) pelo menos cem…” escrevia o líder em Agosto de 1918 em resposta a uma revolta na região de Penza), na perseguição de intelectuais que não seguiam a linha de pensamento oficial do partido (em Agosto de 1921 fuzilou mais de 96 juntamente com outros 448 enviados para campos de concentração) e no uso de membros da burguesia e até do próprio proletariado como escudos humanos (“Não será possível mobilizar mais 20 mil operários e 10 mil burgueses, instalar metralhadoras atrás deles e fuzilar umas centenas?” escrevia a Trotsky a 22 de Outubro de 1919). Se estes cenários e até a própria natureza do regime soviético que emergiu dos anos da Guerra Civil teriam sido diferentes sem a presença deste conflito e sem o contributo das potências Ocidentais para a perpetuação do mesmo, é uma questão que até hoje é controversa e debatida. Provavelmente, mesmo cem anos depois, a Revolução Vermelha ainda desperta demasiadas emoções para uma análise histórica fria e imparcial.

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“Non-objective composition” – Olga Rozanova (1886-1918), artista vanguardista Russa envolvida na reorganização de escolas e instituições de arte, após a Revolução de Outubro.

Como momento definidor do século XX, o seu impacto foi muito além da esfera Russa e da conhecida dicotomia Capitalismo/Comunismo da Guerra Fria que acabou por definir a maior parte do século para o Mundo Ocidental. Porque enquanto o Primeiro e o Segundo Mundo (o socialista) se fixavam após 1945 na maior era de paz desde o século XIX, o Terceiro Mundo preparava-se lentamente para ebulir, transformando-se assim no pilar daqueles que ainda acreditavam no poder da Revolução Social Mundial. Não só o caráter anti-Imperialista das visões de Outubro iam ao encontro da perspetiva dos movimentos nacionalistas de descolonização, como estes países depois de recém criados, face ao seu enorme atraso tecnológico e industrial, viam no modelo soviético de economia planificada enormes vantagens para a rápida industrialização das que tanto necessitavam. Outubro era respirável em todos os cenários de ebulição social e luta anti-Imperialista do Terceiro Mundo por esse século XX. Afinal, já ninguém esperava a revolução social no mundo Ocidental.

Contudo, até neste, os ideais de 1917 encontraram lugar. O movimento de libertação individual de Maio de 1968 (cenário de fundo do filme The Dreamers) seria pois dificilmente imaginável sem os posters das figuras de Lenine ou Mao, apesar da sua índole ser na verdade marcadamente mais anarquista. Na realidade, estes acontecimentos marcaram o início da nova esquerda, com a adoção de questões como a igualdade de género, a luta pelos direitos de minorias sexuais e o combate à xenofobia como pilares centrais para a mobilização de massas destas forças políticas. O tempo da luta de classes e da aliança entre o proletariado e o campesinato no derrube da velha ordem tinha-se lentamente desvanecido na nova geração. Finalmente, é importante recordar que o capitalismo dificilmente teria tido a sua componente marcadamente social dos anos 50/60 (anos que constituíram, aliás, o período dourado deste sistema económico), não estivesse permanentemente sob ameaça. Com efeito, o medo que condições de trabalho degradantes impulsionassem revoltas das classes mais baixas foi, juntamente com as lições aprendidas na Grande Depressão de 1929, o principal motor para a instituição do apoio a nível de segurança social que definiu a economia capitalista Keynesiana da segunda metade do século XX. Com o fim do século, vimos estas medidas serem severamente erodidas pela ideologia neoliberal impulsionada, por sua vez, por um alastramento de uma visão da sociedade essencialmente individualista e centrada no próprio.

Numa época onde o pensamento socioeconómico fundamental não deve ser desafiado, a recordação da Revolução Russa de 1917 é-nos essencial. O que está hoje em questão não é a interpretação correta da história mas sim a pergunta: Será que tem de ser assim? Independentemente das especificidades da Rússia de início do século XX, a Revolução mantém-se hoje viva pelas possibilidades que abre no horizonte. Desta forma, liga-se às desigualdades, opressões e injustiças que, passado um século, continuam a estar (demasiado) presentes no nosso dia a dia. As visões de Outubro importam? Sim, porque mostram a necessidade de esperança temperada com pessimismo. Sem esperança, a mudança nunca virá. Sem pessimismo, nunca conseguiremos avaliar concretamente a escala do que nos propomos realizar. Por todo o lado, sentimos que uma insatisfação com o sistema onde nos inserimos perdura amargamente. Não será possível nas praças de Atenas, Barcelona ou mesmo Lisboa sentir o desejo de mudança, esse aroma revolucionário daquele mês de Outubro, em que massas atingiram algo que parecia então inalcançável?

*Como a Rússia ainda seguia o calendário Juliano, treze dias atrasado em relação ao calendário Gregoriano adotado na maior parte do mundo, a Revolução de Outubro deu-se na verdade a 7 de Novembro.

João Bastos, 5º ano
Ilustração: Mariana Lourenço, 3º ano