Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa
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Infelizmente, a intolerância e o racismo voltaram a estar na moda. Todos nós julgávamos que a nossa sociedade retrógrada já tinha evoluído para uma sociedade mais iluminada e justa e que agora apenas teríamos que resolver alguma parte residual do que tinha permanecido. Mas não: tal como quando não tomamos os antibióticos até ao fim, a infeção voltou.

Nas últimas décadas, a sociedade ocidental tem-se tornado mais tolerante, aberta e liberal, tendo diminuído a olhos vistos os níveis de racismo, xenofobia e intolerância nas ruas das nossas cidades. Contudo, essa diminuição foi meramente ficcional: as elites decretaram, e bem, que a sociedade se devia tornar mais tolerante e intelectual, mas infelizmente, em vez de tentarem verdadeiramente educar a sociedade civil, preferiram o caminho mais fácil de silenciar as pessoas: sempre que alguém expressava uma opinião intolerante, era criticada publicamente, o que fez com que fosse criado uma espécie de acordo tácito na nossa sociedade em que  estas pessoas podiam continuar a ser xenófobas, desde que se abstivessem de expressar as suas opiniões em público. Nas últimas décadas, muito pouco foi feito para verdadeiramente mudar mentalidades. O resultado final não foi a diminuição do racismo nem da xenofobia na nossa sociedade, mas meramente a ilusão de que essa diminuição ocorreu, o que agravou ainda mais o problema da intolerância, uma vez que esse problema continuou a existir mas deixou de ser percecionado como um problema real e atual da nossa sociedade.

O “fenómeno Trump” não está a converter pessoas tolerantes e amigáveis em pessoas racistas e xenófobas; apenas está a dar voz aos milhões de pessoas racistas e xenófobas que já existiam e sempre existiram nos Estados Unidos. O mesmo se passou no Reino Unido com o “Brexit”: os fatores que levaram as pessoas a votar no Leave sempre existiram (o medo da globalização, o nacionalismo desmesurado, a ideia de que os estrangeiros só querem viver às custas do Estado, …) e as pessoas que votaram no Leave por razões xenófobas, racistas e discriminatórias sempre foram xenófobos e racistas; contudo essas pessoas foram, durante décadas, ignoradas pela sociedade e pelo sistema político porque, como não havia nenhum político com o qual concordassem, geralmente decidiam não votar.

A situação que se gerou foi uma bomba relógio de intolerância e xenofobia, que inevitavelmente rebentou mal apareceram políticos populistas e demagogos como Donald Trump, Marine Le Pen ou Nigel Farage. Para mim, mais perigoso do que qualquer demagogo que diz I’m gonna build a wall ou I’m calling for a total and complete shutdown of muslims entering the US, são as pessoas que ao ouvirem isto pensam “Já não era sem tempo”. Nem todas essas pessoas são racistas ou xenófobas, mas uma porção significativa delas é. O problema real, e aquele que temos vindo a ignorar, dos EUA e da Europa não é um ou dois políticos xenófobos, mas sim os milhões de pessoas que os apoiam.

Assim, para resolvermos esse problema, nós, como sociedade, temos que deixar de viver em ilusões e reconhecer, de uma vez por todas, que a nossa sociedade não é tão tolerante como pensamos: há uma porção significativa da população que é intolerante, racista, xenofóba e islamofóbica – nas últimas décadas tornou-se silenciosa, mas continuou a existir, o que foi, em última análise, o que permitiu o surgimento do “fenómeno Trump”, do “Brexit”, do “fenómeno Marine Le Pen”, o ressurgimento dos movimentos ultranacionalistas, do racismo e da ideologia anti-refugiados. Por outro lado, a população  também tem que admitir que não é tão tolerante e livre de preconceitos como julga ser: as pessoas que se consideram muito abertas, tolerantes e internacionais podem até ter ido a Londres, Paris e Nova Iorque, mas quantas dessas pessoas passaram algum tempo em aldeias no Alentejo ou do norte do país ou até nos distritos britânicos menos cosmopolitas que votaram quase exclusivamente no Leave, ou em pequenas aldeias no Tennessee ou na Georgia? Quantas pessoas é que se consideram liberais e não discriminatórias só por terem visto o mundo, quando na realidade foram extremamente seletivas na escolha dos locais que visitaram e das pessoas com as quais contactaram? Uma pessoa que vá a Nova Iorque não fica a conhecer verdadeiramente os Estados Unidos, tal como as pessoas que vão a Londres não ficam verdadeiramente a conhecer a Grã Bretanha. Como os centros urbanos têm maior contacto com culturas diferentes, tornam-se zonas mais tolerantes. Obviamente que há exceções, mas as pessoas que vivem fora das grandes cidades, nos meios mais rurais e isolados, que não tiveram grandes oportunidades de viajar e que não cresceram com acesso à internet, não tiveram a oportunidade de contactar com culturas diferentes e as pessoas temem sempre o que desconhecem. A consequência dos grandes centros urbanos serem bolhas de tolerância e aceitação é que, como que numa espécie de cegueira seletiva, sobre-estima.

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O primeiro passo para a resolução de qualquer problema é reconhecer que ele existe. Tornar as pessoas xenófobas, islamofóbicas e racistas em pessoas mais tolerantes que aceitam a imigração como algo positivo é bem mais complexo e moroso do que se possa pensar. É preciso investir na promoção de contacto intercultural, mas isso não é suficiente. Por mais que nós não o queiramos admitir, a grande maioria das pessoas é egoísta e tem pouco sentido de responsabilidade social: prefere pagar menos impostos do que ajudar outros, pelo que também é necessário garantir que a imigração tem benefícios para os cidadãos dos países que recebem os imigrantes.

Os europeus (e em especial os britânicos) veem a imigração e a situação dos refugiados como uma perda de benefícios: os refugiados vêm, como o estado aceitou recebê-los, tem que lhes proporcionar cuidados de saúde grátis, alojamento, subsídios e emprego, ao passo que os trabalhadores desse país vão ter que pagar mais impostos para compensar o aumento de despesa do estado e os desempregados vão continuar desempregados, porque os empregos vão para os refugiados ou imigrantes. Este argumento é muito difícil de refutar, porque é em parte verdade. Contudo, se a imigração for acompanhada de investimento, crescimento económico e aumento do número de postos de trabalho, os cidadãos nativos desse país não vão pensar que os imigrantes lhes estão a roubar empregos, mas sim que a imigração trouxe mais comércio e melhores condições para todos, incluindo para os cidadãos dos países anfitriões. Só assim conseguimos garantir que os imigrantes são bem acolhidos pela sociedade e não colocados em ghettos urbanos (o que geralmente origina criminalidade e afastamento entre culturas).

O que agrava ainda mais o problema da intolerância é o facto de vivermos numa sociedade pós-factual. O “Brexit” e o “fenómeno Trump” provam que há uma enorme diferença entre a realidade empírica e opinião pública. O “Brexit” nada tinha a ver com a questão dos refugiados, sendo apenas sobre a imigração dentro da União Europeia, mas uma das principais razões do voto no Leave foram os refugiados. Os EUA têm a 11ª menor taxa de impostos da OCDE, pelo que os impostos não são propriamente elevados e a criminalidade violenta tem vindo a diminuir, estando atualmente em mínimos históricos; contudo, quando Donald Trump afirma o contrário, os seus apoiantes acreditam, mesmo contra todos os factos oficiais.

Vivemos numa sociedade em que a verdade já não importa e os factos são irrelevantes, tendo as mentiras, a retórica e a demagogia tomado o papel principal na formação da opinião pública. A misinformation é indubitavelmente um dos gravíssimos problemas sociais que tem sido ignorado por todos, tendo-se entranhado em todos os assuntos da nossa sociedade, incluindo em referendos e eleições recentes em potências mundiais. Tal como a problemática dos intolerantes silenciosos, deveríamos de ter estado mais atentos e de ter resolvido o problema antes de ter adquirido as proporções atuais.

Temos que, de uma vez por todas, resolver o problema da intolerância endémica na nossa sociedade. Temos que fazer um esforço para verdadeiramente transformarmos a nossa sociedade mais aberta e liberal. Isso passa muito pelo poder político, mas também por todos nós. Temos que ter uma participação ativa na vida política, temos que eleger políticos mais responsáveis e temos que ser uma fonte ativa de mudança de mentalidades no mundo. Um amigo uma vez disse-me: All it takes for the triumph of evil is that good people do nothing. And what have you done lately? Hoje pergunto-vos o mesmo.

Nuno Fernandes, 3º ano